Índia: emergente, dividida e aterrorizada

Marcos Guterman

29 de novembro de 2008 | 18h50

Os profundos contrastes econômicos, sociais, étnicos e religiosos da Índia acabaram produzindo um país de múltiplas e muitas vezes inconciliáveis demandas. Cada uma das fatias da população acaba se organizando como uma espécie de “nacionalidade” e, se suas reivindicações não são aceitas, algumas delas se tornam violentas. Assim é que a Índia se tornou o segundo país do mundo com mais mortos em atentados terroristas, perdendo somente para o Iraque. A maior parte das vítimas se concentra na região da Caxemira, fonte de conflito entre hindus e muçulmanos e de tensão com o Paquistão.

Além dos grupos vinculados à minoria islâmica, cada vez mais fortes e com ligações paquistanesas, há os “Naxalitas”, organização terrorista maoísta que cresceu no contexto da crônica falta de distribuição de renda a despeito da grande expansão econômica indiana. Até os atentados da semana que passou, o governo da Índia considerava esse grupo o mais perigoso em atividade no país. Os métodos sangrentos da última ação, contudo, devem mudar drasticamente essa percepção.

Nesse cenário, não espanta que os investidores estrangeiros já estejam retirando seu dinheiro da Índia. Quem pode ganhar com isso é a direita hindu, cuja plataforma privilegia a luta contra o terrorismo.

Um outro aspecto importante dos eventos indianos é que eles indicam um novo tipo de estratégia terrorista: em vez dos tradicionais suicidas ou carros-bomba, a idéia agora parece ser a “introdução um pequeno exército no coração de uma sociedade com ordem para matar e continuar matando tanto quanto possível”, analisou o especialista francês Roland Jacquard para a revista Time. Para ele, é um tipo de terrorismo que se mistura com guerrilha, o que dificulta muito a resposta – como mostra a Newsweek, os primeiros comandos de elite indianos chegaram a Mumbai apenas nove horas depois de iniciada a carnificina.

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