Hoje somos todos iranianos. Ou deveríamos ser

Marcos Guterman

15 de junho de 2009 | 14h06

Roger Cohen, articulista do New York Times, era um dos mais entusiasmados defensores americanos do diálogo com Teerã. Na véspera da eleição presidencial iraniana, Cohen, que estava no Irã, escreveu de lá um apaixonado texto sobre a democracia no país. Hoje, diante das evidências de fraude e da violência da repressão à oposição, o jornalista mudou de idéia: afirmou que o povo iraniano foi “enganado” e que, da noite para o dia, todo um movimento democrático “evaporou-se, ao ponto de parecer ter sido apenas uma alucinação”.

“Eu tenho defendido o diálogo com o Irã e ainda acredito nisso, embora, em nome dos milhões de iranianos enganados, o presidente Obama devesse interromper temporariamente sua iniciativa”, disse Cohen. E mais: “Eu também defendi que, embora repressiva, a República Islâmica oferecia significativa margem de liberdade, de acordo com os padrões regionais. Errei ao subestimar a brutalidade e o cinismo de um regime que conhece a utilidade da crueldade”.

Os governos dos EUA e dos países europeus manifestaram dúvidas sobre o resultado da eleição iraniana, o que, em linguagem diplomática, significa que ninguém levou a sério uma votação com tão evidentes sinais de manipulação. Isso quer dizer que muito provavelmente esses países aceitarão a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, mas sua legitimidade como representante dos iranianos será duramente questionada nos foros internacionais, já bastante hostis ao controverso presidente.

Mas Ahmadinejad pode ficar tranqüilo porque, se tudo der errado, ele sempre terá um porto seguro – o Brasil de Lula.

Ao contrário do resto do mundo civilizado, que questionava os resultados da eleição iraniana e criticava a repressão policial, o governo brasileiro, por intermédio de Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, concluiu que as manifestações da oposição eram um “bom sinal” – de acordo com essa lógica, se há protesto, há democracia. O raciocínio de Garcia, convenientemente, omitiu a brutal repressão do regime, coisa difícil de considerar democrática.

Mas a reflexão do dia veio do colega brasileiro de Ahmadinejad. Lula disse que os protestos da oposição são “manifestações de quem perdeu”. Aparentemente desinformado, afirmou não conhecer ninguém, “a não ser a oposição”, que tenha contestado a reeleição de Ahmadinejad e que não há provas de fraude. “Por enquanto, sabe, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”, declarou o presidente brasileiro, reduzindo tudo, como de hábito, ao campo de futebol.

Piadinhas varzeanas à parte, é o caso de perguntar se existem limites éticos a esse “pragmatismo” da política externa do governo Lula.

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