Futebol e a construção do "patriotismo"

Marcos Guterman

22 de junho de 2010 | 01h14

Os “Bleus”, como é conhecida a seleção da França, estão protagonizando um episódio que tem tudo para ser histórico. A coisa é, aparentemente, simples: o esquentadinho atacante Anelka despejou um caminhão de insultos sobre o técnico Raymond Domenech ao ser substituído na derrota para o México; como resultado, foi desligado da delegação. O problema é que a decisão de afastar Anelka gerou uma onda rebelde na seleção francesa que ainda não é possível mensurar. É um caso inédito em Copas e que nos leva a uma reflexão sobre a tensão entre o que querem os jogadores de futebol e o que se espera deles, em meio a pressões multibilionárias e nacionalistas.

As seleções de futebol são, em tese, a reunião dos mais capazes para representar o país em torneios internacionais que muito se assemelham a “guerras”. A maioria dos jogadores das seleções mais competitivas, porém, não atua em seu país, ou então ganha dinheiro demais para se incomodar de verdade com questões como “amor à pátria”. Quando muito, eles se adaptam à estratégia de marketing que envolve as seleções e as obriga a incorporar o ufanismo como algo natural, mesmo que os atletas nem remotamente sejam os soldados que esse discurso procura criar. O patriotismo vira produto, como prova o “guerreiro” Dunga no comercial de cerveja.

Quando um jogador revolve dizer “não”, quando decide romper a estrutura e questionar as decisões do comandante dos “guerreiros”, como fizeram Anelka e alguns de seus companheiros, a suposta “unidade nacional” se prova uma fraude. Para os jogadores de futebol, há questões tão ou mais importantes que “pátria”. Solidariedade é uma delas.

Mas até o governo francês apelou ao sentimentalismo barato e à crucificação dos rebeldes, ao dizer que o caso Anelka ameaçava se transformar num “desastre moral”. “É a imagem da França que está sendo manchada”, disse a ministra dos Esportes, Roselyne Bachelot, como se o caráter de todo um país pudesse ser medido pelos atos de um punhado de jogadores de futebol.

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