Explorando a imprensa deslumbrada

Marcos Guterman

18 de janeiro de 2011 | 00h31

Enrique Peña Nieto, candidato presidencial mexicano, anunciou suas propostas de governo em uma entrevista ao jornal britânico Financial Times. A escolha de um jornal estrangeiro para falar de política local pode parecer esdrúxula, mas, em se tratando de América Latina, não é: a entrevista de Peña Nieto repercutiu positivamente em todos os jornais mexicanos, conforme registrou a Economist.

O resultado não teria sido o mesmo se Peña Nieto tivesse dado a mesma entrevista a algum jornal mexicano. Como costuma acontecer, inclusive no Brasil, os jornais concorrentes teriam se limitado a registrar em poucas linhas, se tanto, as palavras do candidato. Não foi à toa que Dilma Rousseff preferiu dar sua primeira entrevista depois de eleita ao jornal americano The Washington Post.

Ademais, há uma espécie de deslumbramento provinciano latino-americano, refletido na imprensa local, quando a imprensa europeia ou americana dá destaque a algum país daqui. É uma glória quando um grande jornal dos EUA se lembra de nossa existência, ainda que seja sobre coisas negativas. Como mostram o caso mexicano ou as enchentes no Rio, “deu no New York Times” vai continuar sendo a expressão singela de nosso resistente complexo de inferioridade.

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