Existe humor após Auschwitz?

Marcos Guterman

19 de novembro de 2010 | 09h15

A húngara Frederika Goldberger tem 91 anos. É sobrevivente da perseguição nazista, por ter protegido judeus, e da ditadura comunista, que a obrigou a emigrar para a França. Nos últimos tempos, Frederika deu sinais de depressão, e seu neto Sacha, fotógrafo francês, resolveu melhorar a situação sugerindo que ela fosse personagem de uma série de fotos bem-humoradas, vestida como uma heroína de histórias em quadrinhos. Meio sem jeito, ela topou a brincadeira, e o resultado é a série “Super Mamika”. É uma forma de mostrar-se grata por ter sobrevivido a tantas tragédias e ainda poder fazer graça disso.

O caso de Frederika lembra o polêmico vídeo produzido por uma filha e pelos netos de Adolek Kohn, sobrevivente de Auschwitz. Ele aparece com os jovens dançando diante do que restou do campo de extermínio, ao som da música “I Will Survive”, de Gloria Gaynor. Houve os protestos de praxe de várias lideranças judaicas. A resposta de Kohn foi simples: “Escapei das cinzas e danço por estar aqui com meus netos que poderiam nem existir”.

Ambos os episódios nos remetem à dificuldade de lidar com a imaginada sacralidade de eventos como a Shoah, o extermínio dos judeus da Europa. Para muitos, não é somente um marco histórico; é um acontecimento transcendental, que está na categoria dos eventos religiosos.

Quando sobreviventes decidem interferir nessa liturgia, numa espécie de vingança bem-humorada contra seus algozes, criam um ruído constrangedor, que quebra o silêncio forçado dos cemitérios e recupera o sentido humano da história – para o qual nem todos estão preparados.

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