Eu e o Doutor

Marcos Guterman

05 de dezembro de 2011 | 17h51

Tive o privilégio de conhecer Sócrates pessoalmente em maio do ano passado. Eu, modesto autor de um livro que tem a pretensão de contar a história da república brasileira pela via do futebol, fui convidado a debater o assunto com ele, no Sesc de Curitiba. Sócrates mereceu em meu livro um alentado trecho, sobre sua liderança na construção da chamada “Democracia Corintiana” e sua participação na campanha das Diretas Já. No primeiro caso, ele ajudou a formar a ideia segundo a qual os jogadores de futebol podiam ser responsáveis por si mesmos, sem que fosse necessária a tutela do clube em que jogam – tutela cuja melhor tradução é a famosa “concentração” antes dos jogos. Para Sócrates, uma noite de sexo com a mulher era melhor para o desempenho do jogador do que ficar num hotel olhando para a cara de um bando de marmanjos. Essa bandeira foi empunhada por Sócrates também na vida política nacional, ao juntar-se ao coro dos que lutavam para encerrar a era paternalista dos generais, que julgavam os brasileiros incapazes de escolher seus governantes. Assim, ele teve a coragem de se expor, usando sua condição de ídolo, para derrubar diversas ditaduras.

A “concentração” dos times de futebol ainda existe, e os brasileiros continuam elegendo picaretas, mas nada disso significa que Sócrates tenha lutado em vão. No meu encontro com o Doutor, tive a certeza de que sua inspiração eletrizante bastava para, ao menos, fazer pensar. Não era preciso concordar com suas ideias – aliás, o fato de ele ter dado a um de seus filhos o nome de Fidel dá bem o tom de alguns de seus delírios ideológicos. Mas sua energia era o bastante para incomodar o mais cético dos céticos. E só uma conspiração de deuses podia ter tido a inteligência de plantar um homem com essas qualidades no meio da torcida que, com inequívoca justiça, se intitula “do povo”. Como se Sócrates tivesse a missão de iluminar, com o calcanhar e com suas palavras, gente sedenta de cidadania.

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