Em nome da “paz total”, a “guerra total”

Marcos Guterman

02 de abril de 2012 | 18h54

A guerra volta a ser personagem histórico central com o livro Primeira Guerra Total, de David Bell. Com isso, o historiador americano, especializado em França, ousa ser metodologicamente démodé, porque a academia atualmente só entende por história “processos” que podem ser “desconstruídos” em minúsculos pedacinhos. O resultado é que Bell entrega uma leitura detalhada das guerras de Napoleão – nascidas sob a égide da Revolução Francesa e do Iluminismo – como sintomas da própria modernidade. Em nome da “paz total”, criou-se a “guerra total”, a ideia de que a guerra serviria para “acabar com todas as guerras”.

Até que essa concepção vingasse, a guerra era uma atividade cotidiana na Europa, como parte da vida, “travada da mesma maneira que um par de duelistas conduzia sua luta pedante”, na descrição do prussiano Carl Von Clausewitz, o grande teórico militar do século 19. Bell descreve como os aristocratas a consideravam algo muito próximo de um passatempo de veraneio: “Coronéis franceses em campanha normalmente levavam consigo camas de campanha, assim como porcelana e prataria suficientes para oferecer jantares elegantes – com entrada, prato principal e sobremesa – para 12 pessoas, mais a equipe de empregados para prepará-los e servi-los”. E esse luxo não se limitava aos comandantes, pois “mesmo um humilde primeiro-tenente prussiano precisava de um criado para encaracolar seus cabelos”.

Apesar desse aparente bucolismo, a guerra, com o Iluminismo, começa a ser vista como uma aberração, um desvio da natureza humana. A aposta, entre os filósofos de então, era no advento da paz permanente – e ela só não havia se materializado porque alguma força irracional a estava impedindo. Logo, seria moralmente aceitável travar a “guerra total” para remover esse obstáculo final à plena realização do homem como ser racional e pacífico. O oponente, para os guerreiros revolucionários, era sempre o “selvagem”. Desse modo, em nome da Era da Razão, gerou-se o horror da matança sem trégua – e já não eram mais os interesses feudais de pequenos condados ou de barões “pedantes” que se decidiam no campo de batalha, mas ideologias nacionais forjadas com o propósito de defender princípios morais inegociáveis. A guerra, assim, só terminaria com a aniquilação completa do inimigo.

O primeiro símbolo desse tipo de confronto, diz Bell, ocorreu dentro da própria França, na chamada Guerra da Vendeia. Entre 1793 e 1796, uma revolta camponesa se transforma em rebelião de católicos e monarquistas contra a Revolução. A reação não tardaria, e então estabeleceu-se “um novo padrão europeu de atrocidades”, como descreve o historiador. As estimativas indicam que morreram entre 200 mil e 250 mil homens, mulheres e crianças, cerca de 25% da população local. Segundo Bell, nada, exceto a colaboração com os nazistas, divide tanto os franceses quanto Vendeia. Embora relativize os números e os discursos incendiários, Bell mostra que, de modo inédito até então, o inimigo era retratado como um monstro desumano, “obstáculo ao triunfo da liberdade e, portanto, ao advento de uma paz universal derradeira”. A guerra se tornava um instrumento de extermínio.

No plano externo, como mostra o autor, a ação militar movida por essa certeza ideológica teve seu primeiro grande exemplo na campanha de Napoleão na Península Ibérica entre 1808 e 1813, e que gerou um movimento guerrilheiro igualmente destrutivo. Os espanhóis, sugere o historiador, teriam resistido a Napoleão porque ele desafiava sua imensa fé católica e, portanto, seu modo de vida. Bell enxerga aí paralelos com a insurgência iraquiana, que, caracterizada como muçulmana obscurantista, reagiu ao projeto dos EUA de levá-los à “democracia”.

Para efeitos históricos, porém, a reação espanhola a Napoleão é menos importante do que a dos alemães, enfatiza Bell. Como resposta ao racionalismo francês, em nome do qual os alemães também foram subjugados, a elite germânica passou a flertar com a guerra como algo redentor, uma idealização que se materializou de tal maneira na literatura e no discurso político que duas guerras mundiais foram travadas em grande parte por causa dela. O dramaturgo Heinrich von Kleist ligou a guerra contra Napoleão ao “despertar” germânico contra os romanos, o grande mito de origem da Alemanha unificada. “Às armas! Às armas!” era um verso de Kleist para ser cantado em Ode à Alegria, de Beethoven. E ele não deixou dúvida sobre o caráter dessa guerra libertadora e, em pouco tempo, definidora do próprio perfil alemão nos anos vindouros – criando a ideia de que o alemão só seria pleno se estivesse na trincheira.

Tal ideia “continua a florescer”, diz Bell, e “parece especialmente forte nos EUA”. Quando o país não está no campo de batalha, parece que falta algo – como disse em 2006 o então presidente George W. Bush, citado pelo autor, a guerra “toca de algum modo o âmago dos americanos”.

 

(Resenha de minha autoria publicada no caderno Sabático de 31 de março.)

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