Em defesa dos bancos, os vilões de Dilma

Marcos Guterman

04 de maio de 2012 | 10h00

A presidente Dilma Rousseff achou um vilão ideal: os bancos. Desde o estouro da grande crise internacional de 2008, são eles que protagonizam o discurso dos indignados, como se fossem, os bancos, os grandes responsáveis pelo atual estado das coisas. “É inadmissível”, disse Dilma, em rede nacional de rádio e TV, “que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com os juros mais altos do mundo”. Ou seja: os bancos cobram juros altos porque são, basicamente, malvados. Trata-se do mesmíssimo discurso que ora mobiliza o povo do Occupy Wall Street e quejandos contra o tal “1%” e que é de fácil combustão em palanques. Mas há quem ouse discordar dessa retórica fácil e mostrar que os bancos e os ricos executivos do sistema financeiro talvez não sejam os maiores culpados pela crise, e sim os governos populistas que não atuam contra as verdadeiras causas dos problemas econômicos.

Em seu site, Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, diz que o discurso de Dilma é “assustador”, porque omite o fato de que os juros no Brasil são altos em razão da forte tributação das transações financeiras e do grande volume do recolhimento compulsório dos bancos ao Banco Central, entre outros fatores. É inegável que os bancos poderiam cobrar menos pelo dinheiro que emprestam, mas, para Mailson, a tática do governo de baixar os juros na marra, via prejuízo dos bancos oficiais, empurra a conta do populismo para o contribuinte.

Além das questões econômicas imediatas, o discurso de Dilma embute uma outra característica típica destes tempos bicudos: a tentação de ver na “ganância” dos ricos o mal do mundo. Há quem diga, porém, que, se não fossem os ricos e seus bancos, o mundo seria um lugar muito pior. É o caso de Edward Conard, um milionário executivo de Wall Street que vai lançar um livro em defesa dos vilões de Dilma. Segundo Conard, o investimento do “1%” gera imensa riqueza para as pessoas comuns, na forma de inovação. Ele usa o exemplo do computador. Algumas pessoas ficaram zilionárias com o desenvolvimento da Tecnologia da Informação, mas o resultado da competição entre elas, que implicou em muitos prejuízos até que desse lucro, é um formidável universo de produtos sofisticados a preços baixíssimos, que melhoraram a vida de todo mundo, de um modo que não é possível mensurar. Para Conard, esses investidores ganham até pouco para o bem que geram. Sua remuneração deveria ser maior, inclusive para atrair outros talentos que preferem cursar “história da arte” a entrar no mundo sangrento das finanças, como ironiza o executivo.

Nem todos concordam com esse raciocínio, claro. Joseph Stiglitz, Nobel de Economia de 2001, diz que os revoltados americanos estão cobertos de razão quando questionam o ganho dos ricos em meio à crise. “Os banqueiros embolsaram grandes lucros embora sua contribuição para a sociedade, e mesmo para seus bancos, tenha sido negativa”, escreveu Stiglitz em artigo no Daily Beast.

“Este pode ser o livro mais odiado do ano”, ironiza Adam Davidson no New York Times. Provavelmente ele está certo, em razão da hostilidade generalizada contra os bancos – Stiglitz resumiu a coisa toda ao dizer que “muito do que aconteceu pode ser descrito pelas palavras privação moral”. Mas talvez seja interessante ao menos notar que podemos estar diante de uma armadilha retórica, cujo objetivo é simplesmente jogar com a indignação contra os ricos para ocultar o trabalho ruim dos administradores públicos na economia, com resultados desastrosos para o futuro.

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