Egito: cadê a revolução?

Marcos Guterman

08 de fevereiro de 2011 | 23h54

Os EUA parecem já ter se dado conta de que o Egito vai mudar para ficar exatamente como está. Em público, o governo de Barack Obama pressiona o ditador Hosni Mubarak a suspender as prisões arbitrárias, a parar de perseguir opositores e a incluir vários setores políticos no diálogo para a transição. Na prática, porém, a reforma que os EUA tentam patrocinar talvez não desemboque em democracia, por uma razão muito simples: o Exército não quer, e a Casa Branca sabe que, a esta altura, nenhuma “transição” será possível sem Mubarak e a caserna. Logo, o “novo” regime deverá ter o DNA do atual ditador, na provável figura do general Omar Suleiman – para quem a demanda pela democracia no Egito vem do exterior, e não das ruas do Cairo.

As imagens de soldados com megafones participando das manifestações anti-Mubarak deram a falsa sensação de que o Exército poderia abandonar o ditador. Não houve, contudo, nenhuma fissura nas Forças Armadas, que continuam perfeitamente alinhadas a Mubarak. A estratégia do Exército é sofisticada: declara neutralidade e aparece como “protetor” dos manifestantes ao conter a violência produzida exatamente por agentes do próprio governo. É o “bate-e-assopra” que garante a longevidade das ditaduras.

Enquanto isso, Mubarak tratou de capitalizar a insatisfação dos egípcios que não estão na Praça Tahrir e sentem os efeitos dramáticos da paralisação do país por conta dos protestos. O humor popular em relação aos opositores nunca esteve tão ruim desde que as manifestações começaram.

A soma de tudo isso é que a “revolução” no Egito, na verdade, parece ter dado oportunidade não para a democracia, mas para seu exato oposto – a efetivação de um regime militar.

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