É Ronaldo humano?

Marcos Guterman

07 Maio 2010 | 14h38

O atacante Ronaldo deu na quinta-feira passada uma significativa entrevista. Questionado por um repórter sobre sua suposta falta de “comprometimento” com a forma física, que seria a explicação para seu desempenho abaixo das expectativas nos últimos jogos, Ronaldo manteve a fleuma que adquiriu ao longo dos vários anos de Europa, mas sua resposta transpirou indignação.

“Tenho oito operações no meu corpo, muitas dores e, enfim, eu tenho que ouvir esse tipo de pergunta tua, sobre comprometimento”, disse Ronaldo, pausadamente, com a voz embargada.

Até esse instante, Ronaldo restava confortável na categoria dos deuses. Todas as suas reações eram medidas segundo a mecânica da mitologia: construiu-se uma imagem de super-homem, de um ser em contínuo processo de superação, de uma entidade que representa o elo entre o mundo real e o simbólico – daí a pertinência filosófica de seu apelido, “Fenômeno”. Ronaldo é, assim, a realização dos desejos de potência de milhões de pessoas que projetam nele seus próprios sonhos.

Quando um personagem dessa envergadura apresenta fissuras em sua imagem de heroísmo sobrenatural, contrariando os signos por meio dos quais ele é reconhecido, acontece uma ruptura simbólica: o herói despe-se de sua capa e apresenta-se como humano – com todas as fragilidades inerentes a essa condição. Se é possível localizar o marco dessa ruptura, ele talvez esteja no famoso episódio da relação de Ronaldo com travestis. Com quem o atleta gosta de se relacionar é problema exclusivamente dele, mas a reação ao episódio mostrou a curta distância que há entre a idolatria e a iconoclastia. De uma hora para outra, o mesmo Ronaldo que conduziu a imaginação poética de milhões de homens transformou-se no paradigma da imoralidade. A porção humana de Ronaldo emergiu, como objeto de expiação de imoralidades coletivas.

E a expiação prossegue, implacável. O repórter que fez a indelicada pergunta a Ronaldo (indelicada porque embutia uma acusação grave travestida de impressionismo maldoso) na verdade nada mais fez que vocalizar o ímpeto inquisitorial da massa, em que se diluem irresponsabilidades individuais por meio do holocausto de ídolos caídos. A resposta de Ronaldo foi uma maneira de observar que ele é apenas “humano”, que sente “dores” e que se compromete com seu trabalho na medida do possível, como todos os mortais. É uma tentativa de escapar do altar sacrificial.

Em desespero, Ronaldo tentou ainda agarrar-se à mística em torno de si mesmo ao dizer: “O povo está comigo”. Mas, definitivamente, não está. Que venha o próximo.

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