É isso a direita?

Marcos Guterman

25 de julho de 2011 | 17h46

Muita ênfase tem sido colocada sobre o fato de que Anders Behring Breivik, o terrorista que matou mais de 70 pessoas na Noruega, é “de direita”. É um fato: Breivik é um cristão ultranacionalista anti-islâmico e anticomunista que deixou rastros suficientes por blogs direitistas para que o mundo soubesse de seus predicados. Ademais, cometeu suas atrocidades baseado nas crenças mais caras à extrema direita europeia, sobretudo a hostilidade ao multiculturalismo, que é o traço social mais marcante da Noruega – em seu manifesto, ele critica o “modelo brasileiro” de mistura racial. Logo, não parece fora de propósito vincular seus atos a essa plataforma político-ideológica. No entanto, o que chama a atenção é que o caso Breivik parece ter sido feito sob medida para demonizar toda a direita, e não apenas sua ala doentia.

A direita europeia tem crescido de maneira exponencial. Seu mantra é a crítica à fraqueza do mundo político ante os imigrantes, à venalidade do Parlamento e à inação em relação à crise econômica. Embora seu discurso não poupe virulência contra muçulmanos, imigrantes e esquerdistas, a maioria dos direitistas da Europa não prega a eliminação física dos seus desafetos nem sai explodindo bombas por aí. Mas isso é irrelevante: para comentaristas de esquerda, Breivik representa o “clima pesado” que a direita “semeou” na Europa (aqui, aqui e aqui). Houve até quem classificasse Breivik como “a cara do terror cristão”.

Esse tipo de raciocínio não serve para esclarecer, apenas para confundir. É até possível dizer que Breivik tenha se sentido motivado pelo discurso da extrema direita institucionalizada; mas apontar nessa relação um nexo causal – ou seja, argumentar que, sem o discurso da direita, não teria havido o ataque – é uma generalização cínica. Além disso, a direita é muito mais do que os enunciados de ódio que infestam o texto de alguns de seus líderes mais histriônicos. É sobretudo o lugar do pensamento liberal-democrático e defensor dos direitos do indivíduo ante o arbítrio do Estado. Fazer de Breivik o “símbolo” da direita é o mesmo que transformar Stálin e Pol Pot nos “símbolos” da esquerda ou Osama bin Laden e os aiatolás iranianos nos “símbolos” do islã.

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