E Bernard-Henri Lévy caiu na pegadinha

Marcos Guterman

09 de fevereiro de 2010 | 15h46

Bernard-Henri Lévy é festejado como um dos principais intelectuais franceses da atualidade. Ele acaba de lançar um livro chamado “De la Guerre en Philosophie”, em que trata do filósofo prussiano Kant como “uma abstração falsa, um puro espírito de pura aparência”.

Lévy baseou suas conclusões nas ideias de um filósofo francês chamado Jean-Baptiste Botul, citado no livro. O problema é que Botul não existe.

O filósofo fictício já foi alvo de confusão aqui no Brasil. Criação do jornalista Frédéric Pagès, Botul teve um livro seu publicado por aqui – “A Vida Sexual de Immanuel Kant” – pela editora Unesp, em 2001. Chegou a ser resenhado como sendo autêntico, embora versasse sobre uma inacreditável série de conferências do “autor” proferidas na cidade paraguaia de Nueva Königsberg, em que os moradores todos se vestiam e agiam como Kant.

Apesar das óbvias bazófias, Botul foi levado a sério por Lévy, que humildemente se apresenta em seu site como um pensador que segue “a tradição estabelecida por André Malraux, Jean-Paul Sartre e Albert Camus”. O Nouvel Observateur, que noticiou o caso sob o título “BHL em flagrante delírio“, diz que o escorregão “levanta algumas dúvidas sobre os métodos” do intelectual.

Confrontado com o fato de que caiu na pegadinha, Lévy não se intimidou:

“Tiro o chapéu para esse personagem inventado, mas mais real do que Kant, cujo perfil, seja ele assinado por Botul, Pagès ou Senhor Fulano, parece estar em harmonia com minha ideia de que Kant era atormentado por demônios que eram menos teóricos do que pareciam”.