Documentos são o que queremos que eles sejam

Marcos Guterman

26 Julho 2010 | 23h00

Muito barulho está sendo feito a propósito dos documentos militares secretos americanos que foram divulgados pelo site WikiLeaks. Trata-se de uma enorme quantidade de registros acerca da guerra dos EUA no Afeganistão. Houve quem dissesse, a partir da leitura certamente apressada de tantos papéis, que a estratégia americana estaria arruinada, sobretudo em razão do vínculo entre o serviço secreto paquistanês e o Taleban. Pela lógica, se o Paquistão, principal aliado dos EUA na guerra ao terror, está ligado ao Taleban, milícia contra a qual os americanos lutam, é de se supor que algo não vai bem. A questão é que esse envolvimento paquistanês já era bastante conhecido, e a documentação apenas reforça essa certeza.

Na prática, os documentos nada acrescentam ao que o mundo todo já sabe. Eles mostram “segredos” como a brutalidade da morte de civis e a ampliação das operações secretas americanas para assassinar líderes da insurgência. Estão ainda muito longe de ser o que foram os “Papéis do Pentágono”, documentos que em 1971 ajudaram os cidadãos americanos a entender a real extensão da Guerra do Vietnã. No máximo, os “Papéis do Afeganistão” deverão ampliar o já crescente mau-humor dos americanos sobre a atual guerra.

Outro efeito imediato dos documentos será o de alimentar teses de conspiração. Afinal, se os EUA fazem vista grossa às ações paquistanesas, qual será a “agenda oculta” dos americanos no Afeganistão? Que outras situações inconfessáveis a Casa Branca está escondendo dos eleitores americanos?

Como sabe qualquer historiador, documentos não são fatos em si – eles são, no máximo, o registro de um acontecimento, feito de modo limitado e geralmente impreciso. Para ter importância histórica, o documento deve ser submetido a um questionamento amplo e criterioso, de maneira a vinculá-lo ao contexto em que foi produzido. Esse questionamento deve ser feito de modo honesto, isto é, devem-se fazer perguntas ao documento sem que o historiador antecipe respostas. O sujeito que “tortura” documentos para obter a confirmação daquilo que ele acredita ser a “verdade” não quer, de fato, conhecer a verdade. Quer apenas fazer campanha.

É possível prever, assim, que os “Papéis do Afeganistão” infelizmente serão devidamente “torturados” por muita gente para confirmar a maldade intrínseca do “império americano”, com óbvios efeitos deletérios para a compreensão do tempo em que vivemos.

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