Dilma em dia de Lula

Marcos Guterman

31 de janeiro de 2012 | 18h36

Enfim, a criatura emulou seu criador. Dilma, que até então marcara importantes diferenças em relação a Lula no que diz respeito à defesa dos direitos humanos, decidiu repetir os piores momentos do cinismo lulista em sua visita a Havana. A presidente disse que criticar a repressão tirânica à oposição em Cuba seria equivalente a usar a questão de direitos humanos como “arma política”.

Como vítima de uma ditadura, Dilma sabe muito bem o quanto dói o silêncio do mundo diante da brutalidade de um regime de exceção. Jimmy Carter é tratado como herói pela resistência ao regime militar brasileiro justamente por ter atuado com vigor contra a tortura no Brasil, no momento em que era presidente dos EUA. Carter não se importou em melindrar os generais daqui e não renunciou à sua tarefa como estadista de uma democracia.

Já Dilma preferiu a mediocridade do discurso segundo o qual não se pode “atirar a primeira pedra” quando se trata de discutir direitos humanos. É medíocre porque, como representante de uma democracia supostamente saudável, Dilma deveria considerar inaceitável que cubanos sejam presos por delito de opinião. Mas ela não só passou ao largo do tema como aproveitou a oportunidade para dar uma cotovelada ideológica nos EUA, citando especificamente o caso de Guantánamo. Ou seja: o Brasil se diz olímpico sobre a questão dos direitos humanos, mas, quando decide tocar no assunto, poupa Cuba, que é uma ditadura, e não os EUA, que são uma democracia.

Ademais, quando ainda era diferente de Lula, Dilma criticou valentemente a situação dos direitos humanos no Irã. Ou seja, atirou a pedra no telhado de Teerã sem se preocupar nem um pouco com o “telhado de vidro” brasileiro. Mas a equação, aqui, é muito fácil de entender: enquanto os aiatolás são elementos exóticos do distante Oriente Médio, a ilha dos irmãos Castro é a utopia assassina da qual a presidente e outros militantes esquerdistas brasileiros se sentem românticos tributários.