Dilma e a fórmula Jacó-Salim para a paz

Marcos Guterman

22 de setembro de 2011 | 01h03

Dilma foi à ONU pela primeira vez para reafirmar o desejo do Brasil de integrar o Conselho de Segurança. A presidente usou como argumento, entre outros, o fato de que o Brasil “vive em paz” com seus vizinhos há 140 anos. Ora, como o próprio nome diz, o Conselho de Segurança diz respeito a segurança, em primeiro lugar, e não a um suposto espírito pacifista. Sua função é interferir em confrontos internacionais por meio de esforços que incluem, necessariamente, a dissuasão militar. Nesse aspecto, a desvantagem do Brasil é evidente. Além disso, o país teria de aumentar substancialmente sua contribuição para a manutenção da ONU ­– hoje, o país dá apenas 1,6% do total, contra 22% dos EUA. Ou seja: não basta querer, tem de pagar.

Ademais, as guerras não vão acabar só porque o Brasil é supostamente um país pacífico. Mas essa ingenuidade tocante está incorporada no discurso brasileiro desde o governo Lula. O Brasil, disse Dilma, é o lugar onde judeus e árabes “são compatriotas e convivem em harmonia, como deve ser”. Isso seria a “prova” de que a paz entre palestinos e israelenses é possível. De fato, ela é possível, mas não pelas razões que Dilma invocou, isto é, a alegada “convivência pacífica” num país distante da região em conflito, longe das disputas políticas e ideológicas que incendeiam corações e mentes. A paz é possível se houver convergência de interesses estratégicos, combinada com pressão diplomática e econômica.

Para participar efetivamente dessa articulação, o Brasil teria de oferecer muito mais do que a idílica imagem das lojinhas de Jacó e Salim.