Dilma e a defesa do indefensável

Marcos Guterman

11 de abril de 2012 | 00h01

A presidente Dilma Rousseff, em visita aos EUA, reafirmou que não pretende fazer críticas a países em que haja violação dos direitos humanos. Citando o caso específico da Venezuela chavista, mencionado pela plateia durante palestra em Harvard, Dilma respondeu: “Não me arrogo o direito de fazer recomendação para país nenhum, acho isso muito perigoso, assim como não gostaria que fizessem comentários sobre meu país”.

No entanto, na mesma viagem, o governo Dilma pretendeu interferir explicitamente em questões internas dos EUA, ao criticar uma lei da Flórida que proíbe empresas estrangeiras com investimentos em Cuba e na Síria de fazer negócios naquele Estado americano. A lei, claro, é fruto do lobby dos exilados cubanos em Miami, em sua guerra contra a gerontocracia castrista de Havana. Nem se discute se a proibição americana é justa ou não. Mas pau que bate em Chico tem de bater em Francisco: se Dilma é capaz de atacar uma lei dos EUA (ainda que o objetivo da presidente nada tenha a ver com direitos humanos, e sim com a defesa da ditadura cubana e dos interesses da Odebrecht na Flórida), então ela poderia perfeitamente criticar a prisão de dissidentes em Cuba e a perseguição a jornalistas na Venezuela, para ficar em apenas dois entre tantos exemplos de violência política nesses dois países.

Mas Dilma não vai fazer isso, provavelmente por causa de seus compromissos ideológicos. Como desculpa, diz que o Brasil também tem violações graves de direitos humanos, razão pela qual não poderia criticar outros países: “Do ponto de vista do Brasil, sempre que podemos e temos oportunidade manifestamos o interesse do país em defender os direitos humanos. Agora posso te dizer uma coisa, o Brasil tem grandes desrespeitos aos direitos humanos. Não sei como acontece, não tenho como impedir que nas delegacias do Brasil não haja tortura”.

Como se nota, a presidente recorre novamente a uma inacreditável equivalência moral – em seu discurso, gente que foi presa por se opor ao governo e gente que bateu carteira são a mesma coisa. Assim, a ex-presa política Dilma segue o exemplo de seu antecessor, Lula, e ofende sua própria história para defender o indefensável.

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