Darfur, enfim, tem um réu. E agora, Lula?

Marcos Guterman

04 de março de 2009 | 15h27


Miliciano árabe sudanês:
muitas afinidades com o Brasil

O Tribunal Pena Internacional de Haia emitiu hoje uma ordem de prisão contra o presidente do Sudão, Omar Bashir. Pela primeira vez, um chefe de governo em pleno exercício é alvo de tal decisão, o que dá o caráter histórico do momento.

Bashir é acusado de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, sobretudo por causa do conflito em Darfur. Na região, uma milícia árabe islâmica, apoiada pelo governo, reprime rebeldes africanos, a maioria cristãos e animistas, causando um desastre humanitário ainda difícil de calcular – fala-se em 300 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados.

O Sudão, como era esperado, acusou o tribunal de ser “neocolonialista” e não pretende entregar Bashir. O caso deve ser remetido ao Conselho de Segurança da ONU, que tem poder para fazer valer a decisão.

A propósito do Conselho de Segurança, será interessante ver como se comportará agora o governo brasileiro, que não se envergonhou por se aproximar do Sudão em troca de apoio em seu obsessivo projeto de integrar a máxima instância da ONU. O ponto alto desse vexame se deu no final de 2007, quando o Brasil, no Conselho de Direitos Humanos, se absteve de votar uma resolução que exigia o julgamento dos sudaneses responsáveis pelo massacre em Darfur. Pouco depois, o governo Lula, alegando que estava muito ocupado no Haiti, recusou-se a envolver tropas na força da ONU que interviria no conflito.

O governo Lula nunca reservou uma única palavra de censura a Bashir. Pelo contrário. Encontrou no Sudão e seu governo de mãos banhadas em sangue um animado parceiro comercial e diplomático. Depois da decisão do tribunal de Haia, porém, ficou claro que nosso arremedo de Realpolitik deveria ter um limite, ainda que fosse só o do bom senso.

Foto: Desirey Minkoh/France Presse

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