Cuba e a barbárie conveniente

Marcos Guterman

30 de janeiro de 2012 | 18h12

A recente ação policial para a reintegração de posse de um terreno no bairro Pinheirinho (São José dos Campos), brutal ainda que respaldada pela Justiça, foi classificada de “barbárie” pela presidente Dilma Rousseff. A expressão não saiu diretamente de sua boca, em razão de empecilhos políticos – ela está se aproximando do governador Geraldo Alckmin, chefe supremo da PM paulista. Mas a presidente certamente autorizou sua disseminação, uma forma de marcar posição em relação aos direitos humanos, que é um tema tão caro ao governo federal e a seus simpatizantes à esquerda, e ao mesmo tempo serve para dar uma canelada eleitoral nos tucanos.

No entanto, esse mesmo governo consegue dizer que a situação dos direitos humanos em Cuba “não é emergencial” – e a esquerda radical, tão eficiente na hora de reagir à “barbárie” da PM sob governo tucano, silencia a respeito da barbárie, sem aspas, da ditadura cubana – isso quando não encontra justificativas para a prisão de dissidentes políticos, em nome da “resistência contra o imperialismo”, ou mesmo quando nega a própria existência desses presos. Mas o importante, como fez o chanceler Antonio Patriota nesta segunda-feira, é dizer que “todos temos progressos a fazer” no que diz respeito aos direitos humanos, construindo absurda equivalência moral entre o estado permanente de mentira e repressão sob a ditadura cubana e as eventuais violações em países democráticos – normalmente denunciadas por seus próprios cidadãos, graças à liberdade de expressão.

Em defesa de Dilma, registre-se que ela teve a coragem de dar visto de entrada para uma famosa dissidente cubana, Yoani Sanchez, arriscando-se a melindrar os gerontocratas castristas habituados à adulação dos lulistas, criativos quando se trata de inventar argumentos para proteger notórios criminosos travestidos de “líderes revolucionários” cubanos. Com isso, Dilma revela uma importante diferença em relação a seu antecessor, cuja grande marca na relação com Cuba foi ter comparado os opositores da tirania dos Castros a bandidos comuns.