Contra a austeridade, vale até neonazismo

Marcos Guterman

07 de maio de 2012 | 10h13

Não se espere que François Hollande derrube totalmente a Bastilha da austeridade. Quando muito, o presidente eleito da França representa um socialismo “aguado”, na feliz expressão de meu amigo e mestre João Batista Natali em artigo na Folha desta segunda-feira (aqui, só para assinantes). Ademais, é bom ficar claro que Hollande não ganhou a eleição francesa por ser socialista, ou não principalmente por isso, e sim porque ele prometeu aliviar o torniquete da contenção de gastos, imposto pelo pacto fiscal franco-alemão. Os votos nele foram votos de protesto contra a austeridade, e mesmo assim pode-se dizer que a França está dividida – o desacreditado e cada vez mais direitista Nicolas Sarkozy teve quase metade dos votos. A desmontagem da austeridade na França pelo voluntarioso Hollande terá de ser concertada com Berlim, que já sinalizou um apoio apenas brando à resolução da crise pela via da retomada da expansão econômica.

A responsabilidade pela desmoralização dos planos de recuperação da economia europeia por meio do estímulo e do crescimento foi da crise grega, interpretada como um sinal do que acontece quando o déficit público sai do controle. Então, a Europa deu marcha à ré, Keynes levou um pontapé e a austeridade tornou-se um mantra, a título de “recuperar a credibilidade” dos países ante os mercados. No entanto, numa economia deprimida, cortar gastos significa matar o paciente, e foi contra isso que os franceses se insurgiram. A opção “socialista” era a que estava à mão, mas convém lembrar que, no primeiro turno, a extrema direita teve um desempenho expressivo também.

Nesse aspecto, a vitória relativa dos neonazistas na Grécia é significativa. Do ponto de vista geopolítico, ela não representa grande coisa – afinal, a Grécia não é a Alemanha, no sentido de que um eventual regime ultranacionalista num país pobre e marginal como a Grécia de hoje não tem o mesmo potencial de estrago continental (e mundial) que tinha um regime ultranacionalista num país rico, povoado e central como a Alemanha que Hitler pegou para governar. Mas quando neonazistas declarados chegam ao poder em qualquer país europeu, mesmo desimportante como a Grécia, talvez seja hora de a União Europeia repensar se a visão tecnocrata da economia, que considera o desemprego como fator de reequilíbrio fiscal, entre outras barbaridades, é mesmo um caminho prudente.

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