Conceitos tortos em tempos estranhos

Marcos Guterman

30 de setembro de 2009 | 11h45

Em sua coluna de hoje na Folha, Elio Gaspari sustenta que Lula está certo ao defender a volta imediata de Manuel Zelaya ao poder em Honduras. Para ele, os que depuseram Zelaya “encarnam a praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século”, razão pela qual “Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação”.

É difícil discordar de Gaspari. A história mostra que o Brasil, cujo peso na América Latina é indiscutível, sempre teve papel crucial na preservação das democracias do continente. Por esse motivo, a atitude de Lula, de defender firmemente o restabelecimento do governo eleito de Honduras, é incontestável.

Mas nem sempre as coisas são como parecem, em se tratando de América Latina. Em primeiro lugar, está claro que Lula apóia a democracia só quando lhe convém. Senão, como aceitar o fato de que ele se aproximou de gente do quilate de Kadafi, Mugabe e Bashir? Ora, a democracia não deveria servir para todos?

Em segundo lugar, e isso é o mais importante, parece que os conceitos políticos estão embaraçados propositalmente, de modo a atender interesses retóricos. Há quem diga que o caso hondurenho criou a figura do “neo-golpe”, porque não foi um golpe clássico, mas sim um golpe feito de acordo com “a lei”. Por esse raciocínio, podemos dizer também que os governos “bolivarianos” da América Latina – e Zelaya queria se juntar a eles – são “neo-ditaduras”, porque não são ditaduras clássicas, mas sim regimes de exceção que se estabeleceram e se consolidaram com respaldo das “regras democráticas”.

Ou seja, o caso de Honduras é apenas o sintoma de um momento de confusão institucional na América Latina, muito longe de ser acidental, como a comprovar a persistente fragilidade da própria idéia de democracia no continente.

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