Como seria um negro na presidência dos EUA?

Marcos Guterman

04 de novembro de 2008 | 00h57

Se a vida imita a arte, o cinema americano dá algumas pistas de como seria o primeiro presidente negro da história dos EUA.

O mais antigo filme hollywoodiano a retratar um presidente negro é o curta musical “Rufus Jones for President”, de 1933. Sammy Davis Jr., brilhante aos sete anos de idade, é Rufus. O menino sonha que se tornou presidente, depois de a mãe lhe ter dito que “qualquer um nascido aqui pode ser presidente”. Vivia-se a Grande Depressão, e a esperança do país recaía sobre a capacidade americana de se reinventar. No final, porém, ela teme pelo filho, ao pedir que ele “fique do nosso lado da cerca”, para que “não se machuque”, o que denuncia o medo do racismo.

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Rufus Jones for President

Outro negro a assumir o poder foi Douglas Dilman (James Earl Jones), em “The Man” (1972). Presidente do Senado, Dilman chegou à Casa Branca pela obra do descomunal acaso – o presidente morreu no desmoronamento de um prédio, mesmo acidente que matou o presidente da Câmara; restou o vice para assumir o cargo, mas ele rejeitou por estar doente. Nessa tragicomédia involuntária, ninguém deixa Dilman esquecer a cor de sua pele.

Um presidente negro testado como estadista, humanista e boa praça foi Tom Beck (Morgan Freeman) em “Impacto Profundo” (Deep Impact, 2003). Ele é obrigado a lidar com a catastrófica situação em que um cometa está para dizimar a civilização. Enquanto uma missão espacial, chamada “Messias”, tenta resolver o problema, Beck age para preservar seu país – manda congelar preços e salários e baixa lei marcial para impedir distúrbios. O “messianismo” é explícito: os astronautas se sacrificam para salvar a humanidade, e Beck discursa ao final, diante de um Capitólio em reconstrução, dizendo que os EUA precisam trabalhar duro para recuperar a normalidade.

Também no limite vive o presidente David Palmer (Dennis Haysbert), do seriado “24 Horas”. Palmer, empenhadíssimo em devolver à América um pouco de ética na política, acaba usando seu poder para que o agente de contraterrorismo Jack Bauer faça o seu “trabalho”, o que inclui tortura à vontade. Os fins justificam os meios, desde que os fins estejam acima de considerações mundanas, como direitos humanos.

Mas os presidentes negros de Hollywood nem sempre são sisudos chefes de governo desafiados por cataclismos e terror. Em Head of State (2003), o zé-ninguém Mays Gilliam (Chris Rock) se torna candidato à Casa Branca por uma série de circunstâncias patéticas e acaba se elegendo depois de fazer uma campanha politicamente incorreta, na qual falou da “verdadeira América”, aquela em que não há chances iguais para todos.

E Danny Glover deve ser o próximo presidente negro no cinema, no filme “2012”, de Roland Emmerich. Ele disse que seu papel será apenas “simbólico” – afinal, em 2012, de acordo com a cosmologia maia, o mundo vai acabar.

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