Qual parte do "não" Chávez não entendeu?

Marcos Guterman

02 de dezembro de 2008 | 00h23


Chávez deve estar sentindo calor

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, quer que seja realizado já no mês que vem um novo referendo sobre a reeleição indefinida. Derrotado em dezembro do ano passado, ele havia dado a entender que o revés havia sido temporário e, com sua habitual polidez, classificou a vitória da oposição de “vitória de merda”. É o caso de perguntar agora qual parte do “não” o líder bolivariano não entendeu.

O “timing” da convocação de sua militância para o novo referendo é mais um sinal de que Chávez não digeriu muito bem os resultados da última eleição, quando a oposição obteve significativas vitórias.

Os outros sinais de que Chávez está incomodado vieram há alguns dias, quando ele acusou os opositores eleitos de serem braço de uma conspiração americana para derrubá-lo, a serviço da “extrema direita fascista”. Como bom democrata, ele mandou investigar os opositores eleitos, porque, afinal, eles “causaram momentos de terror e crimes” em 2002, quando o coronel foi vítima de uma tentativa de golpe. Chávez, o conciliador, disse que não acredita nos opositores eleitos quando eles oferecem diálogo e colaboração, porque, afinal, eles são “subordinados a um poder estrangeiro, a uma burguesia”.

Por fim, Chávez, o pacífico, pediu que seus seguidores estejam “preparados para morrer pela revolução”. Agora, ao mobilizar a militância pelo novo referendo, o presidente cobrou uma vitória “por nocaute” – o nocauteado, no caso, é a metade do país que não o apóia.

A urgência de Chávez pode se explicar pela seguinte equação: a crise financeira mundial derrubou os preços do petróleo, pilar da economia venezuelana; com isso, o financiamento dos projetos sociais chavistas ficará ameaçado em 2009, o que pode acabar afetando a popularidade do presidente. Diante desse quadro, o caudilho deve ter concluído que seu projeto de poder está sob ameaça e resolveu agir. Democraticamente, claro.

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