Chávez e a lógica dos calhordas

Marcos Guterman

10 de outubro de 2010 | 20h08

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo. Para o líder da revolução rumo ao socialismo do século 21, Liu – que defende a mudança pacífica de regime político na China – é um “contrarrevolucionário” que não merecia ter sido laureado.

“Esse (Liu) é como Obama, o outro prêmio da paz”, disse Chávez, referindo-se ao presidente americano, que ganhou o Nobel apesar de seu país estar em duas guerras. A reação chavista foi motivada pela manifestação de opositores venezuelanos, que, em nota, pediram a libertação de Liu. Chávez os qualificou de “lacaios” do Ocidente. “São piores do que os ianques”, declarou, para, em seguida, expressar suas “saudações e solidariedade ao governo da República Popular da China”. “Viva China! E sua soberania, sua independência e sua grandeza”, bradou.

As declarações de Chávez têm de ser entendidas no contexto do crescente investimento chinês na Venezuela. Por causa dos negócios, o presidente venezuelano, que enfrenta séria crise econômica graças a sua péssima administração, não vê nenhum problema em criticar um pacifista e elogiar o regime ditatorial contra o qual esse pacifista luta.

Nesse ponto, Chávez é pelo menos mais autêntico do que o presidente Lula, que não se manifestou acerca da premiação a Liu – ao contrário do que fizeram os governos de países importantes, que pediram a libertação do dissidente. Também por interesses econômicos e por uma inexplicável estratégia de alinhar-se a ditaduras, Lula, como bem lembrou Clóvis Rossi em artigo na Folha, optou mais uma vez por um silêncio covarde.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.