Chávez e a lata de lixo da história

Marcos Guterman

29 de julho de 2009 | 23h12


Miquilena: “Chávez deveria renunciar”

Luis Miquilena, velho esquerdista venezuelano, foi aliado de primeira hora de Hugo Chávez. Ele o ajudou a chegar ao poder, liderou a Constituinte e foi seu ministro do Interior por um bom tempo, justamente quando era necessário estabelecer controles mais rígidos para a “revolução” que se avizinhava. Pois é Miquilena, hoje rompido com Chávez, quem melhor define o presidente venezuelano, em entrevista ao jornal El Universal. A seguir, as passagens mais interessantes do texto – cuja leitura deveria constranger Lula e outros líderes regionais que cobram o retorno à democracia em Honduras, mas fazem vista grossa ao que está acontecendo na Venezuela.

El Universal – Por que o senhor procurou Hugo Chávez (no final dos anos 90)?

Luis Miquilena – Eu não o procurei. Eu fui vê-lo quando ele me pediu. Ele me falou da Constituinte, que eu considerava necessária. Tínhamos visões tão coincidentes que, antes do chavismo, o grupo lutou pela Constituinte.

El Universal – Isso o fez acreditar no discurso de Chávez?

Miquilena – Apesar de coincidirmos em muitos pontos, em uma coisa não estávamos de acordo: na persistência da via golpista para chegar ao poder. Ele começou a fazer contato com a ressaca da velha esquerda. Eu lhe disse em uma reunião: Hugo, se continuar a seguir por esse caminho, vai acabar, em dois ou três anos, como mais um histérico nas esquinas de Caracas, sem que ninguém lhe dê atenção, e você tem condições de liderança, deveria aproveitar isso em um discurso democrático. Naquele momento, posso dizer que influenciei decisivamente para que ele trocasse o caminho do golpismo pelo caminho democrático.

El Universal – Valeu a pena convencer Hugo Chávez a tomar o caminho democrático?

Miquilena – Não, pelo contrário. Se ele tivesse continuado naquele caminho (o do golpismo), estaria onde deveria estar: na lata de lixo da história. Mas ele optou pela via democrática, tornou-se líder, apresentou um discurso que todos aprovaram porque sinalizava a separação dos Poderes, a luta contra a corrupção, a descentralização, o caráter republicano e eleitoral do país. Foi esse discurso que, na condição de presidente da Constituinte, tratei de colocar na Constituição, que, sem dúvida, é um texto que se pode apresentar em qualquer regime democrático como uma grande bandeira.

El Universal – O senhor resgata a Constituição desse processo?

Miquilena – Eu a resgato. No decorrer do processo, (Chávez) não fez outra coisa que negar a Constituição, convertendo-a em um farrapo. Deu um golpe de Estado que tem muito mais significado, do ponto de vista dos interesses da democracia em geral, do que o que está ocorrendo em Honduras.

El Universal – Que conselho o senhor daria a Chávez?

Miquilena – Que renuncie, para evitar que o país continue afundando.

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