Chávez: "Colômbia é a Israel da América do Sul"

Marcos Guterman

28 de dezembro de 2009 | 00h17

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, encontrou uma maneira de qualificar seu principal inimigo no continente: disse que a Colômbia é a “Israel da América do Sul“. A comparação esdrúxula, que já havia sido feita antes, pode ser explicada mais ou menos assim: a Colômbia seria o “braço imperial” dos EUA, assim como Israel – aliás, chamado recentemente por Chávez de “braço homicida do império ianque”.

Mas o “raciocínio” chavista não é só fruto de sua obsessão pornográfica por Israel. Ele também pode ser explicado como uma estratégia pedestre de propaganda. “Israel” é o nome que inspira ódio nos anticapitalistas, nos anti-ocidentais e nos antiamericanos. É a palavra mágica que une gente com objetivos tão díspares como os supostos defensores dos direitos humanos, os terroristas islâmicos e os “revolucionários” bolivarianos. Chávez conhece o poder dessa palavra – é o mesmo poder que tem a palavra “judeu” desde pelo menos o século 19, quando o “judeu” deixou de ser o inimigo religioso e passou a ser o inimigo político.

Assim, quando põe Israel no meio, Chávez não está fazendo uma comparação involuntária. Ele sabe que, ao reduzir tudo a uma questão binária, isto é, do “bem” contra o “mal” – sendo que o mal é encarnado pela Israel dos judeus –, sua audiência não refletirá sobre as particularidades da questão colombiana. Na estratégia da construção do inimigo, a irreflexão é central, porque não se pode permitir que se façam objeções às conclusões do líder.

Reflexão e pensamento, aliás, não são nem podem ser o forte de regimes autoritários, caso do chavismo, cuja liderança é aluna aplicadíssima das lições de Goebbels, como esta: “A atividade intelectual é um perigo para a construção do caráter”. Ou esta: “A verdade é inimiga do Estado”.

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