Celso Amorim tem razão

Marcos Guterman

30 de julho de 2011 | 00h45

Parece fácil fazer juízo de valor sobre eventos depois que eles acontecem. Mesmo nessas circunstâncias, porém, é preciso ter algum cuidado. O ex-chanceler Celso Amorim, por exemplo, escreveu artigo no qual diz que a hipótese de que fundamentalistas islâmicos haviam cometido os atentados na Noruega foi disseminada no dia dos ataques graças a “preconceito”. Ou seja: ele sugeriu que a imprensa se deixou levar pela suspeita graças a algum tipo de prevenção em relação aos muçulmanos. O fato, porém, é que a versão sobre os fundamentalistas islâmicos era óbvia, ante o histórico dos atentados no mundo nos últimos anos, sobretudo na Europa.

Os muçulmanos são mesmo os suspeitos de praxe, mas eles não são os únicos. Amorim deveria ter lembrado o caso do “massacre de Jenin”, em que o Exército de Israel foi acusado de matar centenas de inocentes num campo de refugiados palestino em 2002; ou então o dramático caso do menino palestino Mohammad Al-Dura, morto em tiroteio em Gaza, em 2001, supostamente por soldados israelenses; ou ainda do famoso Relatório Goldstone, que atribuiu a Israel indizíveis crimes de guerra na última campanha militar em Gaza. Posteriormente, comprovou-se que não houve massacre nenhum em Jenin, que Al-Dura foi morto por balas palestinas e que o Relatório Goldstone foi feito com informações parciais, tendo sido rejeitado pelo próprio autor. O padrão, em todos os episódios, foi o mesmo: a imprensa e os ativistas pró-palestinos apontaram imediatamente o dedo acusador para Israel, porque, afinal, Israel só pode ser o culpado.

Assim, Celso Amorim tem razão: vivemos mesmo na era do preconceito. Boa parte dos críticos do comportamento da imprensa a respeito dos muçulmanos no caso da Noruega costumeiramente é a mesma claque raivosa que acusa Israel até pela existência de crateras na Lua. Israelenses e americanos, na opinião preconceituosa dessa turma, não são dignos do benefício da dúvida. É com esse humanismo seletivo que se constrói a retórica cínica do altermundismo.

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