Breivik é igual a Hitler? Muita calma nessa hora

Marcos Guterman

28 de julho de 2011 | 17h32

O caso do terrorista norueguês Anders Breivik tem suscitado análises angustiadas sobre um suposto renascimento, na Europa, de um clima propício à difusão de ideias semelhantes às que moveram a gangue de Hitler rumo ao poder na Alemanha.

Um dos textos mais recentes a tratar do assunto dessa forma foi o de Elio Gaspari na Folha de 27 de julho (aqui, só para assinantes). Nele, o comentarista sugere que não se pode descartar Breivik como um sintoma da ressurgência do espírito nazifascista. “Crise econômica, desemprego, nacionalismo, xenofobia, antiliberalismo, antimarxismo e anti-intelectualismo eram parte do cotidiano de uma forma de pensamento político na primeira metade do século passado e ressurgiram, tanto na Europa como nos Estados Unidos. (Os brasileiros estão no topo da lista de viajantes impedidos de entrar em países europeus pelos serviços policiais dos aeroportos.) Onde havia antissemitismo, está hoje o anti-islamismo e a estigmatização dos imigrantes, extensiva aos descendentes”, escreveu Gaspari. Para ele, portanto, o caldo ideológico que favoreceu Hitler estaria de novo em voga.

É um óbvio exagero. Hitler só se converteu de um obscuro cabo do Exército em ditador do país mais poderoso da Europa por uma infeliz combinação de circunstâncias excepcionais. Ele teria se diluído nos grupelhos de extrema direita antissemitas que empesteavam a Europa sem causar grandes estragos não fosse, primeiro, pela tibieza do mundo político conservador alemão. Em nome da luta contra o marxismo, a elite de centro e de direita no país conspirou para acabar com a República de Weimar, que prometia ser uma das mais vibrantes democracias que o mundo já produziu.

Hitler soube fazer a leitura do apelo nacionalista e apresentou-se como um líder político ousado o bastante para gritar aquilo que os conservadores apenas murmuravam. Sua “plataforma”, porém, era incrivelmente vazia – perto dela, o manifesto de Breivik é quase um tratado clássico de ciência política. As “propostas” de Hitler limitavam-se à ideia de reerguer a Alemanha, vingar-se pela derrota na Primeira Guerra e limpar o país dos elementos considerados “traidores” e “fracos”. Para a classe média alemã, não havia necessidade de mais nada: bastava o cântico da ordem e do orgulho nacional para embalar os sonhos de renascimento. Junte-se a isso a extrema disciplina das gangues nazistas, o terror e a propaganda deslavadamente mentirosa e tem-se o caldo que fez de Hitler a única opção viável dos conservadores para dar um golpe e “salvar” a Alemanha da esquerda.

Uma vez no poder, Hitler foi bafejado pela sorte de ter adversários fracos e indispostos ao confronto. Ao rasgar o Tratado de Versalhes, rearmando a Alemanha à luz do dia e reocupando territórios perdidos na guerra, e ao anexar a Áustria e a Tchecoslováquia sem oposição significativa, Hitler sentiu-se um infalível instrumento da Providência. Enamorado pelo som de sua própria voz, ele começou a acreditar em sua própria mentira – a de que dependia de sua “vontade” impedir a “degeneração” da Alemanha e da Europa. Como Hitler, muitos pensavam assim; mas foram fatores totalmente alheios a ele que permitiram que Hitler se sentisse à vontade para passar da teoria à prática, cujo símbolo maior são as câmaras de gás.

Por mais que emule Hitler, gente como Breivik não tem e provavelmente não terá as condições históricas para revivê-lo ou representá-lo. A extrema direita europeia pode ganhar as manchetes e algumas cadeiras no Parlamento, mas o contexto atual nem de longe lembra o que favoreceu Hitler. Não existe o mais remoto sinal de que algum país, liderado por um sósia de Hitler, teria a liberdade de atuação que teve o Führer da Alemanha, entre outras razões porque a Europa unificada significa uma série de compromissos de manutenção da ordem econômica, diplomática e democrática que inexistiam na época da ascensão do nazismo.

Por fim, não se pode dizer, como faz Gaspari, que o antissemitismo foi substituído pela islamofobia como motor da suposta ameaça de renascimento nazifascista. Antes de mais nada, o antissemitismo não desapareceu; pelo contrário, ele está moralmente renovado, tendo agora como alvo a “entidade sionista” e seus “tentáculos de poder”, imagem que nada mais é do que a reedição do mito do excepcional poder judaico. Em segundo lugar, a população islâmica na Europa é majoritariamente formada por imigrantes, ao passo que os judeus perseguidos eram, em sua maioria, cidadãos estabelecidos na Europa havia gerações. O centro do antissemitismo é justamente a hostilidade não ao estrangeiro real, mas a um estrangeiro imaginário, o judeu “desenraizado”, que não pertence a lugar nenhum e que entra no corpo nacional, fingindo dele fazer parte, para parasitá-lo e destruí-lo.

Aquilo a que se dá o nome genérico de “islamofobia”, usado muitas vezes de maneira exagerada, deve ser visto, portanto, no contexto da imigração real, e não imaginária. A reação à presença crescente dos muçulmanos – que na Europa têm uma relação potencialmente conflituosa com o Estado secular, porque tendem a elevar sua doutrina religiosa à categoria de lei civil – talvez não se deva especialmente a racismo. O que provavelmente está em jogo é um sentido de proteção dos valores ocidentais, sobretudo quando confrontados com o discurso islâmico radical e com seus seguidores que justificam o martírio suicida e a ordem baseada na sharia. Não é à toa que Angela Merkel e outros líderes europeus consideram o multiculturalismo um rotundo fracasso. Tal posição não é “islamofóbica” em si, a não ser na opinião da histérica militância antiocidental – que, esta sim, tem clara vocação fascista.

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