Brasil perde a chance de fazer história

Marcos Guterman

08 Julho 2010 | 19h12

Ao lado de Lula, Raúl ofende a inteligência alheia

Ao lado de Lula, Raúl ofende a inteligência alheia

 

Foi necessário que um diplomata europeu aparecesse em Cuba para conseguir convencer a ditadura dos Castros a libertar dezenas de presos políticos. Foi com o chanceler da Espanha, Miguel Angel Moratinos, que Raúl Castro conversou antes de decidir soltar 52 dissidentes, após mediação da Igreja Católica. Poucos detalhes emergiram desse processo, mas é lícito supor que o Brasil não teve participação significativa no desenlace da negociação, e isso mostra que o país talvez não seja a potência que seu governo julga ser.

O fato de o Brasil não ter tido influência num dos mais significativos gestos de abertura do regime cubano nos últimos anos contrasta com o discurso oficial corrente de que o país ganhou condições de mediar complexas questões internacionais. A chave do caso foi oferecida pela Espanha, que dominou Cuba por quatro séculos, quando era de se esperar que fosse dada pelo Brasil, que almeja ser líder regional e cujo atual presidente, além de tudo, é amigo de Fidel Castro.

Dado o histórico da relação de Lula com Cuba, porém, o desfecho não surpreende. Na última visita à ilha, Lula estava ao lado de Raúl quando o ditador negou a existência de presos políticos na ilha – esses mesmos que agora estão sendo soltos – e atribuiu a morte de um dissidente, por greve de fome, ao “terrorismo de Estado” dos EUA. O presidente brasileiro ficou impassível. Mais tarde, obrigado pelas constrangedoras circunstâncias a comentar o caso, Lula não deixou por menos: criticou a greve de fome como instrumento de pressão e comparou os presos políticos cubanos aos “bandidos que estão presos em São Paulo”. Para ele, era preciso “respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos” – mesmo que essa determinação significasse encarcerar opositores do regime.

Enquanto Lula estava fazendo “negócios” com o ditador da Guiné Equatorial, a diplomacia espanhola atuava de modo concreto para mudar alguma coisa na atmosfera de Havana – e o resultado disso é que EUA e União Europeia já sinalizaram que o gesto cubano foi considerado substancialmente significativo. O Brasil deixou escapar a chance de protagonizar algo histórico, entre outras razões porque Lula parece lidar com ditadores com deferência e pragmatismo excessivos – convém lembrar que, em 1979, o hoje presidente brasileiro disse à revista Playboy que admirava “a disposição, a força, a dedicação” de Adolf Hitler.

 

Foto: André Dusek/Agência Estado

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