Bibi, o “messias”

Marcos Guterman

28 de abril de 2012 | 13h52

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, sofreu na sexta-feira, 27, um ataque sem precedentes acerca de sua política em relação ao Irã. Yuval Diskin, ex-chefe do Shin Bet, o serviço de segurança de Israel, disse que Bibi age como um “messias”, um “salvador do povo de Israel”, ao ameaçar atacar o Irã.

Na opinião de Diskin, um ataque contra os iranianos não apenas seria inútil contra o programa nuclear iraniano, como também serviria de pretexto para que Teerã o acelerasse na direção da bomba atômica. “Sabemos que cachorros que latem não mordem. Infelizmente tenho ouvido latidos demais ultimamente”, disse Diskin. Para ele, Bibi consegue impressionar um público “tolo ou ignorante”.

O ataque do ex-chefe do Shin Bet, que é bastante respeitado em Israel, ocorre em meio ao desconforto causado pelo principal chefe militar israelense, Benny Gantz, que disse não acreditar que o Irã queira mesmo ter um arsenal nuclear. Antes dele, outros integrantes dos serviços de inteligência israelenses expressaram convicção semelhante. No ano passado, o chefe do Mossad, Tamir Pardo, chegou a dizer que mesmo que o Irã conseguisse a bomba, isso não significaria uma “ameaça existencial” a Israel, como afirma Bibi. Mais tarde, Meir Dagan, antecessor de Pardo, afirmou que os dirigentes iranianos são “muito racionais”, inclusive o presidente Mahmoud Ahmadinejad, e que um ataque ao Irã seria um “erro”.

A avaliação desses especialistas dentro de Israel mostra que o país talvez tenha chegado a uma encruzilhada em relação a seu próprio arsenal atômico, precipitada pelo programa do Irã.

Embora não seja segredo para ninguém que o programa nuclear iraniano tem fins militares, parece cada vez mais claro que o Irã quer ter liberdade para escolher se irá ou não adiante, conforme suas conveniências. É uma condução inteligente, vis-à-vis o comportamento de Israel – que não admite ter a bomba e, por isso, não se submete aos controles internacionais. Ou seja: a farsa de Teerã é resposta a uma outra farsa.

Se Israel admitisse ao mundo que tem armas nucleares, abriria a possibilidade de uma negociação para um tratado que transformasse o Oriente Médio em zona livre desse tipo de arsenal, algo que o Irã não teria como recusar. Mas Israel construiu seu arsenal nos anos 60 na presunção de que, se não o fizesse, o mundo árabe, derrotado em várias guerras pelos israelenses, em pouco tempo reuniria condições de destruir o país com armamento convencional e tinha de ser dissuadido.

Essa visão apocalíptica ainda prevalece no discurso da liderança de direita israelense, isolando o país e dando legitimidade a seus maiores inimigos. Mas já há em Israel quem se incomode muito com isso.

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