Benny Morris: o “perigo existencial” de Israel está em si mesmo

Marcos Guterman

19 de setembro de 2011 | 21h39

O governo de Israel acusa os palestinos de, ao declararem unilateralmente seu Estado, implodirem qualquer perspectiva de paz. A decisão palestina rompe diversos acordos que impediam tal atitude, sem falar de resoluções da própria ONU que obrigavam os palestinos a declarar seu Estado no âmbito de negociações com Israel. Ao mesmo tempo em que diz que essa Palestina seria um obstáculo à paz, o governo israelense, porém, não oferece nenhuma alternativa aos palestinos. Israel se queixa de que não há com quem dialogar do lado palestino; mas o contrário, neste momento, é absolutamente verdadeiro. E o atual governo americano, em vez de oferecer aos palestinos uma possibilidade concreta de negociação para que desistam de declarar seu Estado agora, preferiram o caminho da intimidação, ameaçando cortar ajuda.

Dentro de Israel, já há quem veja nessa intransigência absoluta do governo o sintoma do fim do sentido democrático que norteou o país desde a sua fundação. Gente como o historiador Benny Morris – criticado tanto à esquerda quanto à direita, o que prova sua importância – acredita que a principal ameaça ao Estado israelense já não é somente a hostilidade árabe e islâmica, mas a traição ao ideal social-democrata de Ben Gurion, o pai fundador do país. Enquanto Bem Gurion aposentou-se sem propriedades numa modesta casa, os últimos premiês israelenses são conhecidos por sua riqueza pessoal e pela opulência de suas posses. Não é por outra razão, escreveu Morris num ácido artigo no The Daily Beast, que os israelenses que protestaram recentemente por melhores condições de vida gritavam contra seu primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, dizendo “Bibi tem três apartamentos, por isso não temos nenhum”.

Esse cenário interno, de fragmentação política e de desilusão social, retira de Israel o conhecido rótulo de uma sociedade vibrante e disposta a discutir seus problemas e o substitui pelo de um país acomodado com a sensação de que sua existência está em risco permanente – situação em que, naturalmente, não é possível fazer concessões.

No espectro mais à esquerda de Morris, o diagnóstico é ainda mais duro. “Basicamente concordo com Morris”, disse o jornalista Gideon Levy em entrevista a este blog. “Mas a Israel que ele critica hoje é a continuação natural do que era Israel desde seu início – uso desproporcional da força, desumanização dos palestinos e ocupação de terras.”

Levy diz que Israel “talvez seja a maior história de sucesso do século 20”, mas afirma que, se a finalidade de sua fundação era justa, os meios usados pelo país para se afirmar não são. “Não é tarde para que meu país mude, e o fim da brutal ocupação deveria ser o primeiro passo”, afirma Levy. “Depois, deve tentar ser aceito na região, parar de acreditar que se trata de ‘povo eleito’ e começar a considerar os palestinos como seres humanos iguais a nós, que têm os mesmos direitos sobre essa terra.”

Agora, porém, com a proclamação do Estado palestino, sob qualquer status, o sentimento anti-Israel deve ganhar força no mundo árabe e islâmico, num verdadeiro “tsunami político”, nas palavras de Ehud Barak. Para Morris, esse tsunami já chegou, e Israel, tomado por uma crise de identidade, parece não estar preparado para ele.