Barack Obama e a massa ignara

Marcos Guterman

03 de novembro de 2008 | 05h51


Obama diante da multidão: à espera do messias

Há algo de estranho na política americana nos últimos tempos, notou o comentarista conservador Fouad Ajami, em artigo no Wall Street Journal. Trata-se, segundo ele, do fenômeno das multidões que seguem Barack Obama para onde quer que ele vá. “Multidão não é algo tão presente na política da América”, escreveu Ajami. “Nós a associamos ao perfil das sociedades de Terceiro Mundo. Pensamos em lugares como Argentina, Egito e Irã, nas multidões que seguiam Perón, Nasser ou Khomeini. Nesse tipo de sociedade, a multidão é uma forma de afirmar sua fé num redentor”.

Citando Elias Canetti e seu “Massa e Poder”, Ajami argumenta que a multidão que segue Obama desfruta da sensação de igualdade entre os seus participantes, mesmo que seja apenas a ilusão do denominador comum. Para lidar com os desejos de cada um dos integrantes da multidão, Obama é ambíguo o bastante: “Ele é uma pessoa diferente para cada platéia”, afirma o comentarista. A multidão de Obama é “a medida do desespero americano”.

Mas a multidão que agora se reúne em torno de Obama, com enormes expectativas a respeito de seu possível governo, é a mesma que se dissipará no dia seguinte à sua eleição, fazendo com que todos voltem a carregar seu “fardo privado”, como diz Canetti. A derrota é algo inimaginável, afirma Ajami, e “a vitória dará a certeza de que nossos problemas serão resolvidos por um passe de mágica do líder”.

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