As palavras e as coisas: "militante" ou "terrorista"?

Marcos Guterman

16 de dezembro de 2008 | 07h11


Indiana em choque após atentado: isso não é terror?

Que nome se dá ao ato de um grupo de pessoas que desembarca numa cidade e começa a atirar contra homens, mulheres e crianças, faz reféns e explode bombas em hotéis e estações de trem? A resposta óbvia é “terrorismo”, mas, em tempos de correção política, nem sempre as coisas recebem o nome que deveriam ter.

O “public editor” (espécie de ombudsman) do New York Times, Clark Hoyt, levanta a questão em texto recente, a propósito justamente dos atentados coordenados em Mumbai. Segundo ele, o jornal titubeou em chamar os terroristas de terroristas, preferindo “militantes”, “homens armados” e “agressores”. A ação deles foi classificada de “terrorista”, mas não eles próprios.

Ocioso dizer que o New York Times foi bombardeado por críticas de gente que gostaria de ver escrita a palavra que começa com “t”.

O problema, diz Hoyt, é como classificar organizações que, embora pratiquem atos terroristas, são muito mais do que isso. O caso do grupo suspeito dos ataques em Mumbai é um bom exemplo. O Lashkar-e-Taiba tem uma agenda política e religiosa em relação à Índia, sobretudo na questão da Caxemira, além de servir de eixo para uma série de organizações de caridade. Por essa razão, há quem hesite chamá-lo simplesmente de “terrorista”.

Outro exemplo freqüentemente citado é o do Hamas. Para o New York Times, o Hamas é um grupo “militante” porque é político e social, situação que não mudaria pelo fato de o Hamas explodir bombas em pizzarias lotadas. Um dos editores do Times, Phil Corbett, ponderou: “Se alguém trabalha num hospital do Hamas, essa pessoa é um terrorista?”.

Os jornalistas que defendem moderação no uso da palavra “terrorista” afirmam que, por conta da “guerra ao terror”, ela esconde mais do que revela acerca do grupo a que se refere e acaba contaminando a informação com questões morais e políticas.

Assim, diz James Bennet, que foi chefe da sucursal do Times em Jerusalém, o problema não é começar a chamar agressores de “terroristas”, é saber quando se deve parar – afinal, ele diz, se não há um critério claro, até os meninos palestinos que atiram pedras contra tanques israelenses serão chamados de terroristas. O mesmo se aplica ao outro lado: se um Exército ataca civis deliberadamente, como no caso de Dresden na Segunda Guerra, o termo “terrorismo” talvez seja impreciso – o certo é crime de guerra, para o qual há leis e punições já estabelecidas.

Um bom começo para resolver o assunto talvez seja definir terrorismo. Qualquer ato violento de uma organização irregular destinado a intimidar a população civil de um determinado local, forçando-a a alterar sua rotina para evitar um novo atentado, parece ser uma explicação razoável para terror. E, como diz Hoyt, somente terroristas praticam terrorismo.

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