As feridas do 11 de Setembro, mais abertas do que nunca

Marcos Guterman

02 de agosto de 2010 | 00h15

A planejada construção de uma mesquita a dois quarteirões do Ground Zero, local que marca o 11 de Setembro em Nova York, ganhou componentes ainda mais polêmicos na sexta-feira, quando a Anti-Defamation League (liga antidifamação), uma das principais organizações judaicas americanas, se pronunciou contra o projeto.

Segundo a ADL, defensora dos direitos humanos e alinhada com a denúncia do pensamento anti-islâmico nos EUA, a construção da mesquita naquele lugar não ajudará a “curar as feridas” do atentado – cometido por muçulmanos fanáticos.

Após reiterar sua defesa da liberdade de religião no país e criticar os que condenam a construção da mesquita movidos por sentimentos anti-islâmicos, a ADL argumenta que há “fortes sensibilidades” em relação ao local onde ficava o World Trade Center:

“Defensores do Centro Islâmico podem ter todo o direito de construir (a mesquita) nesse local, e podem até ter escolhido o local para enviar uma mensagem positiva sobre o islã. O fanatismo que alguns expressaram ao atacá-los é injusto e equivocado. Mas, afinal, isso não é uma questão de direitos, mas uma questão do que é o certo. Em nossa opinião, a construção de um centro islâmico à sombra do World Trade Center causará a algumas vítimas mais dor – desnecessariamente – e isso não está certo”.

Comentaristas judeus americanos manifestaram forte repúdio à declaração da ADL. Paul Krugman, por exemplo, qualificou de “vergonhosa” e “estúpida”. Para ilustrar, o colunista do New York Times propôs uma comparação:

“Causa dor a algumas pessoas ver judeus operando pequenos negócios em bairros não-judeus; causa dor a algumas pessoas ver judeus escrevendo em publicações nacionais (como sei bem pela minha caixa de emails); causa dor a algumas pessoas ver judeus na Suprema Corte. Então, a ADL concordaria que baníssemos os judeus dessas atividades, de modo a evitar a dor dessas pessoas? Não? Qual é a diferença?”.

Jeffrey Goldberg, da The Atlantic, apontou o que, na sua visão, é um erro estratégico da ADL:

“Se nós, como sociedade, punirmos os muçulmanos de boa fé, os muçulmanos de boa fé vão se juntar ao outro lado. Isso não é difícil de entender. Estou desapontado que a ADL não tenha entendido isso”.

Como mostra o New York Times, o caso não é meramente religioso e ganhou componentes políticos nacionais. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que é judeu, defende a construção da mesquita, mas seus ex-correligionários republicanos – tomados de uma espécie de histeria direitista – vêem na obra a rendição dos americanos ao islã radical. Junte-se a isso o fato de que a maior parte do dinheiro para a construção da mesquita está vindo da Arábia Saudita – país que não tem liberdade religiosa e que forneceu os terroristas do 11 de Setembro – e temos importantes contradições no caso para que a direita republicana explore à vontade. Newt Gingrich, um dos principais porta-vozes dessa corrente, declarou:

“Esses muçulmanos e seus apologistas que invocam a ‘tolerância religiosa’ são arrogantemente desonestos. Eles ignoram o fato de que há mais de 100 mesquitas em Nova York. Enquanto isso, não há igrejas ou sinagogas em toda a Arábia Saudita. De fato, nenhum cristão ou judeu pode sequer entrar em Meca”.

Um comentarista muçulmano bengali, Salah Uddin Shoaib Choudhury, premiado nos EUA por denunciar os muçulmanos radicais, chegou a escrever que a mesquita seria como “cravar uma bandeira islâmica no Ground Zero”, o que seria “um chute na cara dos que ainda estão em choque com a morte de 3.000 pessoas por militantes muçulmanos”.

Pesquisas mostram que a maioria dos americanos é contrária à construção da mesquita, diz o New York Times. E os parentes das vítimas do 11 de Setembro são muito claros sobre o que sentem, como mostra Lee Hanson, cujo filho, Peter, foi morto no atentado: “Quando eu olhar para lá e ver uma mesquita, vai doer. Construam em outro lugar”.

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