Alguém aí acredita no Irã?

Marcos Guterman

27 de abril de 2010 | 10h22

O Brasil pediu “garantias” ao governo do Irã de que o programa nuclear do país será “pacífico”. Noves fora o mise-en-scène diplomático do nosso chanceler em Teerã, é isso o que o mundo deseja: que o Irã integre a lista de nações responsáveis e desenvolva seus projetos energéticos sem, ao mesmo tempo, criar um cenário de desestabilização regional. A pergunta é: não será ingenuidade acreditar nas “garantias” do governo iraniano?

Regimes fechados como o iraniano, em que as instituições não são submetidas a nenhum controle democrático nem se veem obrigadas a prestar contas sobre seus atos a instâncias cidadãs, têm campo livre para dizer uma coisa e fazer outra. Restarão sempre a retórica, a mentira e o engodo para justificar a quebra da palavra – ou seja, no dia seguinte ao teste da bomba atômica que o presidente Mahmoud Ahmadinejad “garantiu” que jamais construiria, o governo iraniano alegará, como sempre faz, que suas palavras foram “mal traduzidas”, que nunca disse isso ou aquilo, que jamais deu “garantia” de nada. Já vimos essa estratégia funcionar antes: Ahmadinejad afirmou diversas vezes que a “entidade sionista”, isto é, Israel, vai desaparecer e que o Holocausto é um mito; no entanto, sempre aparece alguém para afirmar que se trata de “erro de tradução”, que ele nunca disse isso ou sugeriu aquilo, como se todos os jornalistas ocidentais fossem idiotas ou então estivessem mancomunados num complô para destruir o “pacífico” regime iraniano.

E, no que nos diz respeito, há mais um problema: quem será o avalista dessas “garantias” iranianas? O Brasil? Estamos mesmo dispostos a colocar nosso incipiente prestígio em jogo caso o Irã não cumpra com sua palavra?

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