Ahmadinejad e o cinismo como política de Estado

Marcos Guterman

23 de setembro de 2010 | 23h11

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sugeriu nesta quinta-feira, em discurso na Assembleia Geral da ONU, que o 11 de Setembro foi perpetrado pelos próprios americanos. O “querido companheiro” do presidente Lula usou mais uma vez a tribuna das Nações Unidas para insultar a civilização, ao elaborar o seguinte raciocínio:

“A respeito da responsabilidade pelos ataques do 11 de Setembro, há três pontos de vista. Primeiro, que uma poderosíssima e complexa organização terrorista, capaz de cruzar com sucesso todas as camadas da inteligência e da segurança americanas, cometeu o atentado. Esse é o ponto de vista sustentado pelos governantes americanos. Segundo, que alguns segmentos dentro do governo americano orquestraram o ataque para reverter o declínio da economia do país e de seu poder no Oriente Médio, de modo a salvar o regime sionista (Israel). A maioria dos americanos, assim como a maioria das nações e dos políticos ao redor do mundo, concorda com essa visão. Terceiro, que os atentados foram cometidos por um grupo terrorista, mas que o governo americano apoiou e tirou vantagem da situação. Aparentemente, esse ponto de vista tem poucos defensores”.

A reação da delegação americana foi imediata: os diplomatas se retiraram, como já haviam feito em outras ocasiões, quando Ahmadinejad lançou dúvidas sobre o Holocausto. Foi uma maneira elegante de lidar com um anão político que tenta emular Hitler.

Ao questionar o 11 de Setembro e o Holocausto, Ahmadinejad apela a uma parte da opinião pública intelectualmente disposta a responsabilizar os “sionistas” (eufemismo para designar os judeus) e os americanos por supostas “conspirações” subterrâneas para controlar o mundo. Hitler fez exatamente o mesmo, nos anos 30. Sua estratégia era caracterizar os judeus e os comunistas como malignas entidades que tramavam contra a Alemanha, penetrando nas entranhas da sociedade, subvertendo a ordem e espargindo o vírus traiçoeiro da modernidade.

Contra esse estado de coisas, Hitler convenceu a maioria dos alemães de que era preciso enfrentar os inimigos usando a violência, a propaganda e o terror como armas legítimas – já que o inimigo, segundo essa concepção, usava o mesmo arsenal. Na Berlim de Hitler, e agora na Teerã de Ahmadinejad, o cinismo ganhou força de política de Estado.

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