Adeus ao Iraque prenuncia guerras mais “higiênicas”

Marcos Guterman

21 de outubro de 2011 | 18h13

O presidente Barack Obama anunciou a retirada de todos os soldados americanos remanescentes no Iraque, após nove anos de uma campanha militar que conseguiu a proeza de erodir toda a solidariedade internacional de que os EUA dispunham após o covarde ataque do 11 de Setembro. A intenção americana, a princípio, era manter alguns soldados no Iraque, mas não houve acordo com o governo iraquiano sobre a concessão de imunidade a esses militares, exigida por Washington. Agora, apenas uns 150 ficarão por lá, basicamente para tomar conta da representação diplomática americana em Bagdá, a maior dos EUA no mundo. Além deles, outros milhares de mercenários, os “contractors”, soldados de empresas privadas americanas, também permanecerão no país, também com a função de proteger os diplomatas.

O anúncio de Obama tem um óbvio aspecto eleitoral, já que o presidente precisa criar fatos impactantes para compensar a crescente ira dos americanos com o estado da economia do país.

Mas o “timing” é perfeito por outro motivo: coincidiu com a derrota da ditadura de Muamar Kadafi na Líbia, que só foi possível graças ao auxílio militar da Otan. Um dos aspectos centrais da estratégia da aliança ocidental na Líbia foi a adoção de bombardeios aéreos sistemáticos e “cirúrgicos” para eliminar lideranças inimigas e abrir caminho para a infantaria dos combatentes locais. Sem perda de soldados, o desgaste de campanhas desse gênero é obviamente bastante reduzido.

A Guerra do Iraque, com centenas de milhares de soldados em terra, parece fazer parte do passado; o presente é o uso de “drones”, pequenos aviões não tripulados que fazem reconhecimento e eventualmente bombardeiam alvos em terra. Foram usados pelos franceses e americanos na Líbia (consta que um “drone” desses atacou o comboio onde estava Kadafi em fuga) e são usados pelos americanos para matar insurgentes no Afeganistão ou terroristas no Iêmen e no Paquistão, poupando o desgaste de ter de levá-los para Guantánamo, outra excrescência da era Bush. Bin Laden, para ficar só num bom exemplo, foi morto numa ação que contou com o apoio decisivo de um drone.

A aposta nessa guerra “higiênica” fez o orçamento do Pentágono com os drones saltar de R$ 550 milhões em 2002 para R$ 5 bilhões neste ano. O mercado para esse equipamento não enfrenta recessão: há uma corrida no Oriente Médio, na Europa e na Ásia para comprar esses brinquedinhos letais.

EUA e Israel são os principais fabricantes, mas a China está correndo por fora, e com bastante apetite.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.