A tentação de Mussolini

Marcos Guterman

07 de janeiro de 2012 | 11h42

Embora se pareça com uma biografia, Mussolini, de Pierre Milza, que acaba de sair pela Editora Nova Fronteira, está longe de ser um mero retrato do fundador do fascismo. O livro é, sim, uma detalhada radiografia do funcionamento de um regime cuja memória ainda inspira sentimentos controversos na democrática Itália, com ecos em várias partes do mundo – afinal, como lembra Milza, em certo momento dos anos 30 o modelo mussoliniano foi visto na Europa e mesmo nas Américas como uma solução entre a leniência da democracia e os perigos do comunismo.

Milza declara que seu objetivo é tentar fazer uma interpretação “justa” do fenômeno Mussolini (1883-1945), que “suscitou, com o passar do tempo, todas as nuances possíveis de idolatria e ódio”. Para isso, o historiador francês, especializado em fascismo, decidiu voltar aos documentos – como os arquivos da secretaria particular do Duce – para entender como funcionava o cotidiano do que ele chama de “sistema Mussolini” e como o ditador manipulava os homens que o cercavam, explorando seus antagonismos para emergir como o centro do poder.

A ideia, diz Milza, é tirar Mussolini da mitologia da insanidade, locus comum dos tiranos totalitários do século 20, e colocá-lo na história. Com isso, o autor polemiza, pois mostra que os crimes de Mussolini não foram especialmente graves se comparados aos dos demais ditadores europeus e também aos “excessos” das democracias francesa e britânica em suas guerras coloniais.

Milza nega que faça “revisionismo” das trágicas pegadas do fascismo e diz que seu objetivo é somente “focalizar um destino que marcou incontestavelmente o século 20 na Europa”, isto é, a consolidação de uma mentalidade autoritária. De todo modo, o Mussolini que surge da complexa caneta de Milza é um homem menos cruel e sanguinário do que sua imagem consagrada faz supor, se colocado ao lado de Hitler, Stalin e Franco. No entanto, ao fazer sua revisão historiográfica, o autor refuta a tese de Hannah Arendt segundo a qual o fascismo de Mussolini não era totalitário, e sim uma ditadura clássica.

Para Milza, o totalitarismo do Duce nada devia ao nazismo em termos de domínio ideológico da sociedade – com a diferença fundamental de que, no fascismo, o poder convergia para o Estado, e não para o Partido, e em cujo regime o líder “não tentará desmantelar o que subsiste de estado de direito e não criará um verdadeiro estado policial”. A censura era um dos pilares do fascismo, mas, na prática, o que havia era autocensura. Além disso, o regime afrouxou o controle sobre o cinema, tornando-o estrategicamente mais próximo de Hollywood do que da estética nazista, para satisfazer a “clientela pequeno-burguesa”.

Na Itália fascista, havia uma “diarquia”, com a presença de um monarca ao lado do Duce. Mussolini dizia que os italianos não estavam prontos para a república e que a monarquia, afinal, havia aberto as portas ao fascismo, o que, segundo o autor, era uma “visão realista das coisas”. Milza qualifica o totalitarismo italiano como “ideológico” em vez de político. Nesse sistema, que sobreviveria sem grandes acidentes de 1922 a 1936, o Exército era a garantia de estabilidade – monarquistas, os generais aceitavam que somente o rei e o Duce por ele sacramentado interferissem em sua área. Ademais, o governo se nutriu de tecnocratas, acomodados a um regime que garantia a ordem e os privilégios do capital, regulando o mercado com esse fim. Não houve, portanto, uma ruptura, mas uma acomodação de forças.

Jornalista de talento, Mussolini conhecia o poder da comunicação para a formação da opinião pública e jogou boa parte de sua energia na modelagem de sua imagem perante os italianos. Cultivou um perfil de multiatleta e de homem de modos rudes e honestos, como um “galo da aldeia”, que o identificava com a massa de camponeses italianos. Era também o ditador que “trabalhava”, isto é, que se interessava obsessivamente pelos detalhes de governo, em parte porque não confiava em seus assessores. Desse modo, seu perfil diferenciava-se do de Hitler, que odiava o cotidiano administrativo, e aproximava-se do de Salazar, o ditador-gerente de Portugal. Galeazzo Ciano, seu genro e chanceler, dizia, enfastiado: “Com esse homem não se pode dormir nem comer; ele lê tudo, sabe tudo”.

O Duce se dizia “a mula nacional”, como se o poder fosse um fardo, e não uma realização pessoal, e nisso ele se igualava aos demais tiranos da Europa: via-se como um messias, com um destino fora de série e que toma decisões baseado em seu instinto. Cria-se uma espécie de “religião patriótica”, em que Mussolini aparece como guia incontestável, às vezes como o próprio Deus – uma “tradição semântica própria da extrema esquerda italiana”, isto é, “a personificação de um socialismo intransigente, portador das esperanças do proletariado”, como diz Milza.

Na construção de sua imagem, Mussolini não desautorizava a disseminação de histórias sobre seu vigor sexual – um camareiro relata como o Duce concedia dez minutos de seu tempo para cada uma das mulheres que o visitavam diariamente e eram tratadas como objetos descartáveis. Era um amante brutal e rápido, sem nenhum romantismo. “O donjuanismo mussoliniano fazia parte da panóplia de sinais, aos olhos do povo italiano, da imagem do super-homem”, escreve Milza, numa lição que parece ter sido entendida ao pé da letra por Silvio Berlusconi quando era premiê da Itália e se envolveu em seguidos escândalos sexuais – em sua defesa, Berlusconi chegou a declarar que “gostar de belas garotas é melhor do que ser gay”.

O regime tratou ainda de criar um “estilo fascista”, que deveria ser seguido para cumprir o objetivo de formar o “novo homem”. O líder dessa tarefa era Achille Starace, secretário do Partido Nacional Fascista, que estabeleceu normas às quais todo italiano deveria atentar, submetendo o país inteiro a uma ridícula “revolução cultural” – que incluiu a abolição da pasta, alimento “amolecedor” da raça. “É um cretino”, dizia Mussolini sobre Starace, “mas é um cretino obediente.”

Apesar da fantasiosa visão de mundo fascista e da violência do Estado, o regime de Mussolini ganhou amplo apoio popular e mesmo entre os intelectuais, cooptados para difundir a imagem do Duce como “renovador da cultura nacional”. Muitos intelectuais, como Pirandello, aderiram por oportunismo, diz Milza, e pouquíssimos se arriscaram a desafiar o regime de frente, como Benedetto Croce. O projeto fascista ganhou apoio também dos principais líderes da Igreja Católica, e só houve alguma crise entre o papa e o Duce porque o governo queria controlar a educação e a juventude, seara normalmente dominada pelos padres na Itália profunda – e então a Igreja acusou Mussolini de violar seus “direitos sobrenaturais” ao tentar “sacralizar o Estado”.

Milza descreve os italianos daquela época como um povo “não familiarizado com a cultura da democracia liberal” e que se considerava satisfeito com a ditadura, do ponto de vista material e patriótico – sobretudo depois das sanções impostas pela Liga das Nações à Itália após a invasão genocida da Etiópia, em 1935. O autor diz que a historiografia marxista é incapaz de admitir que pode ter havido consenso em torno de Mussolini sem a necessidade do terror. Hoje, afirma ele, os historiadores não discutem mais se houve adesão ao regime, e sim se essa adesão foi passiva, apática ou entusiasmada, uma problematização semelhante à que tem sido feita em relação ao nazismo na Alemanha.

Admirado por Churchill e Roosevelt, cortejado por Gandhi, contratado por Hearst para escrever em seus jornais nos EUA, elogiado por Kipling e por Bernard Shaw, o Mussolini que enfrentou o comunismo em nome do delirante “renascimento” do Império Romano foi o herói de uma elite fascinada com um projeto que, em meio às profundas incertezas dos anos 30, oferecia a tão desejada paz social. Sob a perspectiva de Milza, fica claro por que a tentação do fascismo na Europa parece mais viva do que nunca.

 

(Resenha de minha autoria publicada no Sabático de 7 de janeiro de 2012.)