A Síria e os múltiplos cenários de confronto

Marcos Guterman

28 de novembro de 2011 | 18h30

O levante na Síria tem o potencial de colocar Turquia e Irã em rota de colisão. Para os turcos, interessa retratar a revolta (e todos os outros movimentos da chamada “Primavera Árabe”) como um sintoma de que seu modelo de governança, que combina islamismo e democracia, está sendo copiado na região. Para os iranianos, por sua vez, é interessante mostrar os levantes como prova de um “renascimento muçulmano”. Nos dois casos, é óbvio, o que está em jogo são projetos de hegemonia, contra os quais se erguerão, certamente, Egito e Arábia Saudita – apoiados por Israel.

Para o Irã, o prejuízo da queda de Assad é maior, porque Damasco (e, por conseguinte, o Hizbollah) é o eixo que ainda mantém Teerã influente no Líbano, plataforma preferencial de suas ambições regionais. É por isso que Assad recebe apoio militar e financeiro dos iranianos – ao mesmo tempo em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad, já de olho no pós-Assad, tenha condenado o uso da força pela ditadura síria.

A chance de complicar a vida do Irã no tabuleiro do Oriente Médio era boa demais para que a Liga Árabe e a Turquia a perdessem, o que explica o isolamento promovido contra a Síria. Como resposta, a Síria já posicionou mísseis na direção da Turquia – que já está também sob ameaça de ataque iraniano caso o Irã se torne alvo militar do Ocidente.

Em meio a todo esse cenário, uma eventual guerra civil síria, hipótese cada vez mais concreta em razão da indisposição de Assad para o diálogo e com o encorajamento da oposição armada por EUA e Europa, pode criar situações incontroláveis e com um grau de letalidade que faria a guerra na Líbia parecer brincadeira de criança.

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