A Síria e o perigoso conto de fadas da diplomacia brasileira

Marcos Guterman

18 de agosto de 2011 | 17h33

Houve diversas tentativas de apaziguar o ditador da Síria, Bashar Assad, para que ele acabasse com a violenta repressão a dissidentes do regime, que já matou centenas de pessoas. Mesmo governos próximos de Assad, como o turco, tentaram em vão demovê-lo de sua insana campanha, denunciada até mesmo por uma comissão de direitos humanos na ONU, normalmente ocupada demais com seu tema favorito, Israel. Segundo essa comissão, Assad é responsável por execuções sumárias, tortura de presos e abuso de crianças. As investigações indicam que agentes do governo, fazendo-se passar por civis, usaram de violência para confundir os sírios e justificar o massacre.

Mesmo sendo uma peça importante para a complexa diplomacia do Oriente Médio, razão pela qual ele havia sido poupado até agora, Assad acabou totalmente isolado. Nesta quinta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, em coordenação com os líderes da Europa, enfim exigiu que o ditador sírio deixasse o poder. Fez o que potências responsáveis devem fazer diante de situações em que a emergência humanitária supera largamente as considerações políticas. Obama deixou claro a Assad que a violência de seu governo atingiu níveis intoleráveis e que é hora de o mundo civilizado agir com mais rigor.

Para o Brasil, porém, não é bem assim. Nossa diplomacia esposa a tese segundo a qual Assad é tão vítima da violência quanto os rebeldes, imagem esta construída graças às artimanhas do regime sírio denunciadas até pela ONU. Em nome de uma suposta necessidade de diálogo, o governo Dilma se dispõe a acreditar na palavra de um ditador que já deu seguidas provas de seu cinismo assassino, na presunção ingênua de que ele desistirá de defender seu regime com todos os meios desumanos que tiver a seu dispor. Em vez de juntar-se às nações cientes de suas obrigações perante a comunidade internacional, o Brasil prefere continuar com uma postura que beira a irresponsabilidade.

Existe um delírio do esquerdismo nacional segundo o qual o princípio da “autodeterminação” deve prevalecer sobre aspectos humanitários urgentes. Um exemplo eloquente disso foi dado pelos deputados Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) e Brizola Neto (PDT-RJ), que integram uma delegação disposta a “conhecer de perto” a situação na Líbia. Como se sabe, o país está sob ataque da Otan porque o ditador Muamar Kadafi estava massacrando dissidentes como moscas. Em nota, os dois parlamentares sugerem que a ONU organize um plebiscito na Líbia “para que o povo decida o regime de sua preferência”. É isso mesmo: para Brizola Neto e Protógenes, os líbios devem ter a oportunidade de votar se preferem a democracia ou se gostariam de continuar vivendo sob o regime de terror de Kadafi. Além disso, os deputados, em seus sonhos, acreditam mesmo que seria possível realizar uma votação honesta num país absolutamente conflagrado como a Líbia e que os “eleitores” poderiam exercer livremente seu direito de voto e de consciência sem serem aterrorizados pelas forças leais a Kadafi. A piada teria graça se um monte de gente não estivesse morrendo.

Mas o resto do mundo não se deixa insultar. Como afirmou uma porta-voz da Human Rights Watch a respeito da atitude brasileira em relação à Síria, “a moderação (defendida pelo Brasil) só encontrou mais morte e violência por parte das forças de segurança da Síria, e o Brasil deveria assegurar que a Síria não tome o esforço diplomático brasileiro como se fosse indiferença em relação à repressão contra manifestantes pacíficos”. Em outras palavras: a atuação do Brasil, embora certamente inspirada em razões nobres, está sendo usada por um regime terrorista simplesmente para legitimar-se.

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