A “revolução de Wall Street” é um sopão

Marcos Guterman

06 de outubro de 2011 | 01h05

Saiu o primeiro manifesto do movimento que faz protestos há vários dias em Nova York e outras cidades americanas. Como já dava para imaginar, os militantes criticam de tudo um pouco, desde o “colonialismo dentro e fora do país” até “a tortura, o confinamento e o tratamento cruel de incontáveis animais não-humanos (sic)”. O texto, assinado pela “Assembleia Geral de Nova York que ocupa Wall Street na Praça Liberdade” termina convocando os “povos do mundo” a fazer “valer o seu poder”, ocupando “espaços públicos” e atuando “no espírito da democracia direta”.

A principal queixa dos simpatizantes desse movimento é que a imprensa não está dando a ele o devido destaque. Eles têm uma certa razão, mas, a julgar pelo estilo leninista-zapatista delirante da convocação, é compreensível que os protestos ainda não tenham sido levados a sério. Ademais, sem uma agenda sólida de reivindicações que o identifique, o movimento tende a ser qualificado como um mero flash mob, do qual, obviamente, os oportunistas de praxe agora tentam tirar uma lasquinha.

Os inventores do movimento, uma turma canadense que publica uma revista anticapitalista chamada Adbusters, dizem que a agenda é irrelevante. Segundo eles, o que importa é o movimento em si, a “tomada de consciência”. A inspiração, afirmam, é a revolta de 1968 na França. Para eles, esse episódio mostra que a soma de uma ideia com o momento certo “é suficiente para começar uma revolução”. Como se sabe,1968 foi uma reação espontânea de jovens de classe média contra a “cultura capitalista” e propunha mudar “tudo”. Embora o movimento tenha embalado sonhos e ainda seja referência libertária, foi um fracasso político – e mesmo as mudanças sociais e comportamentais que ele gerou foram rapidamente incorporadas à mesma “cultura capitalista” que os revolucionários diziam combater.

O pessoal da Adbusters, apesar disso, não se dá por vencido. “Acho que desta vez a coisa é muito mais séria”, disse Kalle Lasn, que dirige a revista. “Estamos numa crise econômica, numa crise ecológica, vivendo numa espécie de mundo apocalíptico, e os jovens perceberam que eles não têm um futuro viável pela frente. Este movimento que está começando agora pode ser a segunda revolução global com a qual estávamos sonhando no último meio século.”

De fato, não é improvável que o movimento ganhe cada vez mais espaço, mas seu alcance talvez seja bem menor do que seus idealizadores supõem. Assim como as grossas manifestações do Tea Party por sua plataforma ultraconservadora doentia não eram representativas da maioria do eleitorado americano, os protestos em Wall Street também não podem ter sua dimensão exagerada, embora os militantes se jactem de ser “99%” dos americanos. Por trás deles estão os de sempre: sindicalistas, movimentos da esquerda “altermundista” e Michael Moore. Não dá para dizer que, com esse elenco, uma revolução esteja realmente em curso nos EUA.

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