A quem interessa desmoralizar os jornalistas?

Marcos Guterman

25 de setembro de 2010 | 00h07

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo tentou justificar seu estranho apoio ao ato intitulado “Em defesa da democracia e contra o golpismo midiático”, ocorrido na quinta-feira na sede da entidade. Ante as críticas de que incentivou um protesto justamente contra o trabalho dos profissionais que deveria representar, o sindicato, por meio de nota, explicou que sua reação se dirigia contra “as direções das empresas jornalísticas”, que obrigariam seus empregados a “distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos”, com o objetivo de “influenciar ou determinar o resultado de uma eleição”.

Para o sindicato, esse “estado de coisas só acontece porque os jornalistas perderam força e importância no processo de elaboração da informação no interior das empresas”. Diz a nota que “cada vez menos jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública”, porque “ela passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a dita orientação editorial são penalizados”.

O sindicato trata como excepcional uma situação que é a própria rotina do trabalho jornalístico. Nenhum jornalista tem, sozinho, o “poder da informação” – a não ser que produza um blog pessoal. Nos jornais e revistas, nas rádios e TVs e nos sites de informação na internet, o processo todo é dividido em etapas, como sabe qualquer estudante de jornalismo. A “triagem prévia já no seu processo de edição”, de que fala a nota, é essencial, porque as informações recolhidas precisam receber tratamento adequado aos limites do veículo. Esses limites são impostos por questões técnicas, financeiras e, sim, eventualmente políticas. Por isso, quem compra a Veja ou a Carta Capital sabe exatamente o que vai encontrar.

Ao omitir as nuances e complexidades desse processo, o sindicato tentou simplesmente separar os jornalistas que estão no “chão da fábrica” dos executivos que estão em cargos de direção nas Redações – como se os próprios executivos não fossem, também eles, jornalistas atuando segundo as normas da profissão.

Não é segredo para ninguém razoavelmente bem informado que os grandes veículos de comunicação atuam de acordo com uma agenda construída por interesses específicos de grupos econômicos, políticos e sociais. Não há crime nisso, tampouco “golpe”. O próprio site do sindicato certamente seleciona as informações que publica, justamente porque tem uma agenda e interesses específicos a atender.

O que o sindicato não disse em sua nota é que a maioria dos jornalistas busca trabalhar, dentro da agenda da empresa, de modo o mais honesto e rigoroso possível – e por “possível” entenda-se uma atividade em condições muito adversas, com equipamentos ruins, instalações precárias, inexperiência profissional e formação acadêmica deficiente. As informações obtidas e eventualmente publicadas, porém, não são fruto de distorção malévola. São fatos – muitas vezes incompletos, mas, ainda assim, fatos. Os escândalos não são produzidos pela imprensa, mas pelo peso desses fatos em si. É óbvio que erros grosseiros são cometidos – e os inquisidores implacáveis do jornalismo, vestais da ética que, em sua maioria, nunca pisaram numa Redação, adoram usar o “caso da Escola Base” como paradigma da suposta incapacidade da imprensa de relatar corretamente os acontecimentos, como se não houvesse outros tantos casos em que os acertos provam justamente o contrário.

Só para lembrar, foram trabalhos jornalísticos que deflagraram os processos que resultaram na renúncia de Nixon e na queda de Collor. A julgar pelo raciocínio expresso em sua nota, porém, o sindicato deve considerar esses dois episódios também como meros “golpes midiáticos”, embora, no caso de Collor, não consta que o mesmo sindicato tenha acusado os profissionais envolvidos na cobertura de distorcer informações ou, pior, de ter partido político.

No grosseiro episódio da Casa Civil, uma ministra foi demitida, e o próprio presidente Lula a atirou publicamente aos leões. Se não tivesse sido o trabalho jornalístico que tanto o sindicato critica, porém, a opinião pública jamais teria tomado conhecimento de que a Casa Civil havia se transformado em balcão de negócios. Desse modo, chamar de “golpe midiático” a divulgação de informações relevantes sobre desvios na administração pública – ainda que as fontes dessas informações tenham notória vinculação política – é, isso sim, negar a própria essência do trabalho jornalístico e constranger a liberdade de informação e de expressão, em favor de interesses inconfessáveis.

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