A primavera russa e o inverno de Putin

Marcos Guterman

11 de dezembro de 2011 | 15h58

O premiê da Rússia, Vladimir Putin, mandou seu porta-voz dizer que está “ouvindo” a voz das ruas, referindo-se aos protestos contra a fraude nas eleições parlamentares que favoreceram escandalosamente o partido do autocrata russo. É uma concessão e tanto para um homem habituado a ditar em vez de ouvir. Mas isso não deve ser interpretado como abertura real ou mesmo como democracia. Putin não é dado a isso. Quando muito, seu ato deve ser lido como uma constatação de que, sim, os protestos foram grandes e representativos o bastante para que ele não os ignorasse. Pela primeira vez na história política russa, manifestações foram organizadas fora do âmbito político – gente de classe média intelectualizada, ligada em redes sociais, se indignou com a fraude eleitoral, e agora Putin tenta se mostrar flexível.

Mas isso é tudo. Entre os que orbitam o centro do poder russo, sabe-se que Putin acena com negociações apenas para ganhar tempo até que os protestos enfraqueçam, dando-lhe tranqüilidade para a eleição presidencial, daqui a cerca de três meses, quando deverá retomar o cargo do qual nunca saiu.

Se Putin é o novo Mubarak, só o tempo dirá, mas há sinais de que essa comparação pode não ser tão estapafúrdia. O próprio Putin parece ter percebido que não pode se isolar, como fez o seu colega ditador egípcio, e essa é uma das razões para encenar essa “abertura” ao diálogo – a ordem de não reprimir o protesto do sábado dá o tom de sua preocupação.

Um dos trunfos de Putin sempre foi o de dar a sensação aos russos de que recolocou o país entre os mais importantes do mundo, e isso depende em larga medida de sua imagem internacional, agora francamente ameaçada pela fraude eleitoral e pela subseqüente mobilização da oposição. Os EUA, por meio de Hillary Clinton, vocalizaram duras críticas ao golpe da autocracia liderada por Putin. Não chega a ser um gesto de ruptura do governo Obama, que permanece comprometido com o “restart” nas relações com Moscou, mas indica tempos difíceis pela frente.

Assim, o endurecimento externo e interno mostra que Putin, para não ter o mesmo destino de Mubarak, precisa mais do que simplesmente “ouvir” a voz rouca das ruas. Deve dar a impressão de que vai levá-la realmente a sério.

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