A pressão do ministro do papa sobre Dilma

Marcos Guterman

19 de janeiro de 2011 | 10h30

Nomeado recentemente um dos ministros do papa Bento 16, dom João Braz de Aviz, arcebispo de Brasília, achou-se no direito de cobrar da presidente Dilma Rousseff “clareza” acerca de suas posições morais e religiosas. “Não temos uma ideia clara de quem é Dilma do ponto de vista religioso. Ela precisa explicar melhor as suas convicções religiosas para que o diálogo possa progredir”, disse Aviz em entrevista à Folha.

Trata-se de uma cobrança indevida. Dilma, como disse em seu discurso de posse, é presidente de todos os brasileiros, incluindo aqueles que não professam nenhuma fé. No mesmo discurso, a presidente jurou defender a Constituição, que deve ser seu parâmetro essencial no exercício do cargo, conforme as tradições republicanas. Suas opiniões pessoais sobre aborto e homossexualismo são relevantes somente para quem se vê na obrigação de fazer julgamentos morais sobre ela. No limite, mesmo que ela seja contrária ao aborto, Dilma deve simplesmente zelar para que a lei seja cumprida – e, se a lei permitir o aborto, que assim seja. Se, por outro lado, Dilma quiser banir o aborto, como deseja a Igreja, terá de submeter esse projeto ao Congresso e ao Judiciário, e o resultado do debate democrático é que definirá o rumo do tema. Ou seja: a vontade pessoal de Dilma não vale grande coisa ante seu papel como executor da vontade popular expressa no sistema representativo e de freios e contrapesos entre os Poderes – sem falar na cláusula de separação entre Igreja e Estado.

Para a Igreja, porém, como expressou Aviz, o “diálogo” só será possível se a presidente se posicionar segundo a tradição conservadora católica. O ministro de Bento 16 lembrou de Lula, que dizia ter uma convicção pessoal como “homem de fé” e outra como “homem de Estado”. Na opinião do arcebispo, “a gente tem uma moral, e não duas”.

Mas a moral não é somente aquilo que respeita os princípios cristãos. Ademais, a vida política é a capacidade de adaptar-se às circunstâncias e atuar sobre elas, de acordo com a transformação dos costumes e com o fim último de garantir o bem comum, e não somente o de uma parte da sociedade.

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