A política externa de Lula: o real e o imaginário

Marcos Guterman

05 de novembro de 2010 | 23h53

O presidente Lula fez nesta sexta-feira um balanço da política externa de seu governo. “Muita gente que foi presidente antes de mim deve estar com a coceirinha na cabeça, perguntando por que ele fez e eu não fiz”, disse Lula, com o habitual desrespeito a quem veio antes dele. Noves fora o palavrório político-partidário, deselegante para quem é chefe de Estado, qual é o balanço efetivo da política externa brasileira?

Há vários méritos a destacar. O Brasil, com Lula, procurou imprimir questões sociais na agenda global, com resultados mais ou menos satisfatórios, sobretudo por causa do carisma do presidente. Foi também um caixeiro-viajante exemplar, buscando ampliar os acordos comerciais brasileiros em toda parte, inclusive na periferia geoeconômica. Por fim, mas não menos importante, usou seu peso crescente para denunciar, com razão, as distorções do atual modelo de governança global, que resulta na incapacidade de superar impasses.

No entanto, essa contribuição se reduz drasticamente quando confrontada com o discurso do governo. Para Lula e seus seguidores, não basta ter feito o que estava ao seu alcance para inserir o Brasil nos grandes debates internacionais como ator central; é preciso acrescentar qualidades delirantes e feitos inexistentes ao currículo diplomático nacional.

O famoso Bric, de que se orgulha o Brasil, não existe senão como sigla. China e Rússia raramente atuam como bloco com Índia e Brasil – o episódio da votação das sanções do Irã, em que Pequim e Moscou ignoraram Brasília solenemente, prova isso.

A integração latino-americana é outra uma miragem, que só serve à retórica bolivariana. Venezuela e Equador chegaram à beira da guerra com a Colômbia, Honduras foi rachada ao meio por causa do chavismo, Argentina e Uruguai se estranharam por causa de papeleiras e o punhado de blocos diplomáticos inventados pelo espírito bolivariano, a título de cooperação sul-americana, serviu somente para sobrepor-se a blocos já existentes e a produzir documentos sem peso algum.

Nos fóruns internacionais, novas derrotas. O Brasil não conseguiu a tão sonhada cadeira no Conselho de Segurança da ONU, deu diversos vexames no Conselho de Direitos Humanos da ONU ao se alinhar a ditadores e obteve resultados pífios em negociações comerciais.  

A “grande vitória” da diplomacia brasileira, o acordo com o Irã, não sobreviveu ao papel em que estava escrito, restando ao governo Lula a conclusão patética de que o acerto não prosperou por causa de “inveja” dos EUA.

Todos esses episódios mostram que a diplomacia brasileira sob Lula preocupou-se muito mais em afirmar-se como contraponto aos EUA e ao governo de FHC do que como eficiente e respeitada instituição que é, desde sempre. E esse partidarismo, movido por desabrido antiamericanismo, dilui as conquistas do atual governo numa maçaroca ideológica, temperada com doses cavalares de messianismo.

Com Dilma, que não tem um pingo do carisma de seu criador, e parece não compartilhar de sua megalomania, é possível que a política externa brasileira volte a ser pelo menos racional.

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