A Olimpíada será o que dela fizermos

Marcos Guterman

04 de outubro de 2009 | 18h07

O principal argumento dos adversários da realização da Olimpíada no Rio de Janeiro é a corrupção. De acordo com essa lógica, os contratos para as obras do evento serão necessariamente superfaturados, beneficiando uns poucos empresários e políticos em detrimento do “povo”, desde sempre ludibriado por essa máquina lubrificada para lesar a república.

Essa percepção é alimentada por cinco séculos de contaminação do Estado por interesses alheios aos da maioria. “Temer o desvio de dinheiro público sob o pretexto dos Jogos não é neurose, é simples conhecimento da história nacional“, disse, com razão, o historiador Hilário Franco Júnior, em entrevista ao Aliás, do Estadão. Mas a corrupção não é apenas histórica neste país. Ela está entranhada no perfil brasileiro, como se o oposto fosse simplesmente improvável, isto é, como se não fosse possível sequer pensar o Brasil sem corrupção. Esse fenômeno foi mensurado em interessante pesquisa que o Datafolha fez e que o Mais! deste domingo publicou.

Segundo o levantamento, 92% acham que há corrupção no Congresso, 92% acreditam que os partidos políticos sejam corruptos e 33% entendem que seja impossível fazer política sem corrupção. A despeito da amplitude desses números, eles de certa maneira não surpreendem, uma vez que a imagem da política no Brasil é tradicionalmente ruim – e só faz piorar, principalmente porque existe a noção de que o espírito corporativo dos políticos ajuda a salvá-los da punição que lhes seria adequada. O episódio da defesa de Sarney por Lula é a lamentável prova disso.

Os números mostram que, embora com certo exagero, a maioria absoluta dos brasileiros tem noção do que seja corrupção pública. Mas a parte interessante da pesquisa não é essa. É a parte que diz respeito aos próprios cidadãos brasileiros. Dos entrevistados, 68% admitem que já compraram produtos piratas, 27% baixaram músicas da internet sem pagar e 18% compraram ingressos de cambistas.

O problema, portanto, é o que o brasileiro entende por “corrupção”. Para 43%, o mal está no governo e no poder público, e apenas 21% acreditam que ele esteja na “falta de ética” (resposta que, muito provavelmente, também está vinculada aos políticos). Ou seja, a maioria dos brasileiros pensa que a corrupção seja algo exclusivamente ligado ao mundo da política. Os pequenos deslizes (suborno, incentivo à pirataria e indiferença às leis de trânsito, por exemplo) são vistos com muito mais leniência, como se não fossem atos de corrupção.

É claro que burlar contratos de obras públicas para faturar milhões de reais é muito mais grave do que estacionar em fila dupla ou comprar relógio de camelô. No primeiro caso, o dano ao Estado é infinitas vezes mais significativo. Mas não estamos tratando de gradações aqui. O que está em discussão é por que há corrupção e por que ela é tão viva na percepção dos brasileiros – e uma das respostas pode ser justamente sua presença na vida cotidiana. Políticos corruptos não são eleitos à toa. Eles são eleitos porque talvez reflitam o próprio país e sua indiferença à corrupção.

Assim, desafio tão grande quanto fazer a Olimpíada será mudar o jeito que vemos o Brasil. Talvez o caminho seja começarmos pelo simples: mudando nossos próprios hábitos.

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