A morte de um gigante

Marcos Guterman

18 de junho de 2010 | 15h43

Não era possível ficar indiferente a José Saramago. Seu estilo complexo e sua temática provocadora certamente repeliam mais do que atraiam leitores. No entanto, uma vez superado o estranhamento, revelava-se um escritor vigoroso e corajoso, qualidades raras na literatura, a qualquer tempo.

Saramago vivia de ironizar a Igreja, num país fervorosamente católico, e de questionar a qualidade da democracia e da burocracia na Europa. Mostrou-se desencantado com a vida descartável do século 20 e, claro, com a sobrevivência do capitalismo.

Seu comunismo militante foi usado muitas vezes por seus detratores para desmerecer sua obra, o que é uma injustiça aliás típica de nosso tempo. Saramago era um crítico da ocultação retórica da tirania, quer fosse em Israel ou em Cuba. Mesmo que tenha cometido exageros ou poupado Fidel Castro, Saramago nunca se ausentou, transformando-o num dos raros intelectuais públicos, daqueles sem vínculos senão com sua consciência.

Por essa razão, Saramago deve se transformar num clássico, por exprimir como poucos as contradições de seu tempo.

Tudo o que sabemos sobre:

José Saramagoliteratura

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: