A morte de Bin Laden e o fim da Al Qaeda

Marcos Guterman

02 de maio de 2011 | 18h07

O significado da morte de Bin Laden após uma década de caçada – que resultou numa guerra ainda em curso, no Afeganistão – depende de distanciamento que só a história será capaz de dar, a exemplo do próprio 11 de Setembro. Mas o governo americano parece empenhado em construir uma situação em que não só Bin Laden pereça, mas tudo o que ele representa, isto é, sua ideologia niilista.

Detalhes da versão americana para os fatos apontam para essa tentativa de desmoralizar Bin Laden. Dizem que ele se escondeu atrás de uma mulher para se proteger do ataque no Paquistão. Essa imagem tem diversas implicações. Bin Laden, o símbolo da “coragem” para enfrentar o Ocidente, era, na verdade, um covarde que usou uma mulher como escudo humano. Além disso, o homem que se arvorava uma espécie de novo profeta do islã, defensor da pureza de uma religião que diz justamente proteger as mulheres, não pensou duas vezes antes de usar uma mulher para salvar a pele.

Mas os americanos não precisam se empenhar tanto na desmoralização. Tudo conspira para ser este o fim da Al Qaeda, porque o grupo estava organizado em torno da figura de Bin Laden. Pensar na ideologia da Al Qaeda sem Bin Laden é pensar no nazismo sem Hitler – é o carisma que responde pelo poder de mobilização de recursos escassos. Some-se a isso o fato de que as populações árabes das quais a Al Qaeda esperava simpatia estavam cada vez mais enojadas de seus métodos, o que resultou em crescente isolamento.

Apesar disso tudo, Obama resistiu a dizer “missão cumprida”, como fizera seu desastrado antecessor sobre uma Guerra do Iraque que ainda estava longe de acabar. Mas restou um “a justiça foi feita”, o que trai, em essência, a sensação de vingança dos americanos.

O terrorismo pós-Bin Laden continuará a existir, claro. Mas o sujeito que criou o terror como ferramenta de destruição do mundo ocidental está agora alimentando tubarões no Mar da Arábia.