A mesquita em NY: islamofobia ou direito de opinião?

Marcos Guterman

30 de agosto de 2010 | 00h30

O caso do projeto de construção de uma mesquita perto do Ground Zero – local onde ficava o World Trade Center – permite discutir os limites da liberdade de expressão no que diz respeito às religiões.

Já houve quem considerasse prova da islamofobia nos EUA a pesquisa segundo a qual 61% dos americanos são contrários ao projeto islâmico em Nova York. Para 70%, a mesquita seria um insulto às vítimas do 11 de Setembro. “Isso vai além da islamofobia. É ódio aos muçulmanos, e nós estamos profundamente preocupados”, disse Daisy Khan, co-fundadora do grupo que está planejando a construção do centro islâmico.

Khan comete uma confusão importante. De forma deliberada, ela toma como ódio aquilo que nada mais é do que uma opinião fundamentada em princípios democráticos: a de que o respeito a uma religião não pode pressupor a negação do interesse público e das normas do Estado. Trata-se de uma tentativa de desmoralizar qualquer crítica ao islã, mesmo aquelas que evidentemente têm como base a defesa do respeito ao Estado democrático de direito.

O sentimento da maioria dos americanos, ao julgarem inadequado construir uma mesquita perto do local onde quase 3 mil pessoas foram mortas por fundamentalistas muçulmanos, deve ser entendido em seu devido contexto: o trauma do 11 de Setembro e a ambiguidade das lideranças muçulmanas nos EUA, que cobram respeito ao islã ao mesmo tempo em que fazem sermões com forte tom antiamericano.

A esse propósito, Judea Pearl, pai do jornalista americano Daniel Pearl – o “judeu Daniel Pearl”, como o classificaram os terroristas muçulmanos que o degolaram e o esquartejaram em 2002 –, escreveu um contundente artigo no Jerusalem Post. Diz ele que os muçulmanos deveriam escolher outro lugar para erguer sua mesquita em Nova York. Para Judea, a construção ali “prolongaria a ilusão” de que os muçulmanos americanos são aceitos sem que suas lideranças parem de tratar dos muçulmanos como “vítimas” do Ocidente, dando justificativa para o terrorismo.

E Judea vai adiante, tocando em pontos essenciais, como o fato de que os crimes cometidos pelos terroristas muçulmanos têm sempre alguma justificativa, que é invariavelmente atribuir a culpa da violência à vítima:

“(As lideranças muçulmanas nos EUA) acusam o país de uma longa cadeia de crimes contra a humanidade, especialmente contra os muçulmanos, e essas teorias da conspiração enviam mensagens dúbias aos jovens muçulmanos, engendrando ódio e sensação de abandono: a América e Israel são os primeiros a serem responsabilizados pelos problemas e o sofrimento dos muçulmanos. Os atos terroristas, quando condenados, são imediatamente explicados em seu contexto; legitimadores espirituais de terroristas suicidas são reverenciados além da crítica; o Hamas e o Hizbollah são permanentemente protegidos do rótulo de ‘terroristas’. Acima de tudo, a mensagem que emerge desse discurso é clara: quando é o sofrimento muçulmano que está em questão, a América é sempre culpada, e a violência, justificada, quando não é obrigatória”.

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