A mensagem do extremismo judeu

Marcos Guterman

03 de outubro de 2011 | 20h36

Extremistas judeus incendiaram uma mesquita no domingo na Galileia, norte de Israel. O crime é tanto mais bárbaro quando se recorda que a manutenção dos lugares sagrados de todas as religiões está prevista na própria declaração de independência de Israel. Assim, todo o establishment político israelense condenou em termos duríssimos o ataque – o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu o qualificou de “horrível”. Mas foi o presidente de Israel, Shimon Peres, quem usou as palavras mais pesadas: “É inconcebível que um judeu destrua algo que seja sagrado para outra religião. Esse ato é não-judeu, é ilegal, é imoral e nos causa enorme vergonha. Eu condeno com veemência esse ato horroroso, em qualquer língua. É um dia difícil para a sociedade israelense. Como presidente de Israel, neste momento de introspecção entre o Rosh Hashanah (ano novo) e o Yom Kippur (Dia do Perdão), eu denuncio esses atos terríveis. Esses atos destroem as relações entre nós e nossos vizinhos e entre as várias religiões em Israel”.

Ao dizer que condena o ataque “em qualquer língua”, Peres dá um recado sutil: ele espera que, quando houver violência de palestinos contra israelenses, que esta seja igualmente condenada pelas autoridades palestinas – o que quase nunca acontece. Para recordar, quando os árabes controlaram Jerusalém, entre 1948 e 1967, os judeus e os cristãos foram impedidos de freqüentar seus lugares sagrados na cidade. Dezenas de sinagogas foram destruídas, e outras foram transformadas em estábulos.

Mas o princípio da civilização, do qual Israel se orgulha, não prevê, seguramente, a vingança como modelo de justiça. Se os árabes erraram no passado e se eventualmente ainda erram, isso não justifica que judeus devam atuar como bestas. O fenômeno dos ataques, que os próprios terroristas judeus chamam de “etiqueta de preço” – embutindo aí a ideia de troco –, se explica primariamente como resposta desses extremistas à violência de palestinos e também à destruição, pelo Exército israelense, de casas de colonos erguidas sem a permissão do governo.

Só essa explicação, contudo, não basta. A ainda incipiente onda de violência de extremistas judeus deriva de uma visão de mundo dentro do movimento sionista religioso, centrada numa ideia equivocada do que vem a ser o “povo eleito” – rótulo que lhes serve como autenticação de sua suposta superioridade. E, se há alguém superior, existe, em contrapartida, alguém inferior – isto é, os não-judeus, particularmente os árabes. A colonização da Cisjordânia é parte intrínseca dessa concepção – e nenhum governo israelense pode senão trabalhar para concretizá-la.

Essa visão ainda é bastante minoritária, mas, por ser parte da doutrina ensinada em algumas escolas religiosas judaicas em Israel, tem potencial de durabilidade e eventual expansão. Ademais, ela também está presente no discurso de uma parte do atual governo de Israel, que enxerga os palestinos como seres descartáveis. É contra essa situação que as vozes moderadas de Israel devem imediatamente se levantar – menos por causa de sua dimensão, que é pequena, e mais pela inaceitável mensagem de ódio que ela representa e que nada tem a ver com a democracia que os israelenses tanto dizem prezar.

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