A memória do Holocausto e seus estelionatários

Marcos Guterman

29 de dezembro de 2008 | 09h39


O livro de Rosenblat: invenção

Em 1985, o judeu Benjamin Wilkomirski publicou um livro chamado “Fragmentos”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em que descrevia suas memórias de infância durante o Holocausto. Em 1998, descobriu-se que, na verdade, Benjamin Wilkomirski se chamava Bruno Grosjean, que ele era protestante e que inventara tudo. O escândalo obviamente serviu para toda sorte de discussão acerca do registro do Holocausto – Grosjean/Wilkomirski chegou a ser chamado de “ladrão de memória”. Passados dez anos, um novo caso surge: é o de “Angel at the Fence: The True Story of a Love that Survived”, ou “o anjo na cerca: a verdadeira história de um amor que sobreviveu”. Como acaba de se revelar, a história em questão não tem nada de “verdadeira”.

Trata-se do relato da relação entre o então adolescente Herman Rosenblat, o autor do livro, e uma menina, separados pela mencionada cerca de arame farpado, no campo de concentração de Buchenwald. Segundo o livro, ela lhe levava maçãs e pão, correndo risco de ser pega pelos nazistas. Anos depois da guerra, eles se encontraram por um incrível acaso em Nova York e se casaram. Ao entrevistar o casal, Oprah Winfrey chegou dizer que se tratava da “maior história de amor” que ela já apresentara em seu programa.

Agora, sabe-se que a tal história de amor é uma mentira. Vários especialistas em Holocausto já haviam questionado Rosenblat, dizendo que os encontros na cerca, do modo como foram descritos, seriam impossíveis nas circunstâncias de Buchenwald. Andrea Hurst, a agente literária responsável pelo livro de Rosenblat, ainda tenta descobrir como foi enganada: “Eu me pergunto por que nunca questionei a história. Eu acreditei nela”. O livro, cujo lançamento estava marcado para fevereiro, foi cancelado. Há ainda um filme sendo produzido sobre o tema.

Rosenblat de fato esteve em Buchenwald. Outros sobreviventes, inclusive gente que conhece Rosemblat, disseram não entender por que ele inventou tudo, e agora temem que mais esse episódio dê munição para aqueles que negam o Holocausto. Sidney Finkel, amigo de Rosenblat e também um sobrevivente, resumiu o problema: “Nós damos palestras. Nós contamos nossa história, e agora algumas pessoas vão questionar o que vivemos”.

Por meio de sua agente, o autor explicou que falsificou seu passado para ajudar a disseminar uma mensagem de amor. “Eu queria levar felicidade às pessoas. Minha motivação era fazer o bem neste mundo.”

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